Finalmente, chegamos ao ano da principal disputa eleitoral do Brasil que ocorre a cada 4 anos. Este ano, o povo escolherá os personagens que irão governá-lo pelo quadriênio seguinte: presidente, governadores, senadores e deputados.
O sistema representativo da nossa democracia destina aos partidos a responsabilidade de selecionar os nomes daqueles que se dispuserem a concorrer no pleito.
Esta é a fase na qual os políticos se encontram agora. Não é um momento fácil. Se a elite dos partidos não agir com estratégia, o risco de fracasso na disputa eleitoral aumenta.
Pela maneira como a eleição é realizada, o principal nome na máquina de votar é o do candidato ao cargo de Presidente da República. A partir dele é que os partidos indicam outros nomes para os outros cargos.
A decisão de um partido apresentar um candidato a esse cargo é um momento crucial. A escolha bem-feita aumenta a possibilidade de o partido conquistar mais cargos de outros níveis políticos, como governadores, senadores e deputados.
O indicado para concorrer à Presidência é o cabeça da disputa, em torno do qual os outros candidatos devem orbitar, para serem identificados como um auxiliar na tarefa de governar o Brasil. Se um candidato a presidente recebe uma boa votação, é quase um sentido lógico que os outros candidatos do mesmo partido também sejam bem votados e eleitos.
Portanto, a principal decisão estratégica do Partido é escolher bem os nomes que concorrerão à Presidente e à Vice-Presidente da República.
Os dirigentes partidários sabem que o candidato a vice-presidente precisa agregar valor à chapa; ou seja, votos. É sobre essa capacidade que nós já lemos matérias nos jornais nas áreas dedicadas à política nacional. É o assunto do momento.
Os comentaristas políticos, como acontece em todos os anos eleitorais, emitem suas análises, dizendo que o candidato X deveria prestigiar uma mulher para ser sua vice-presidente. Outros já dizem que ter alguém de pele negra ou mestiça traria uma imagem mais democrática à chapa principal.
Tudo isso é muito bom, mas tudo é muito politicamente correto. Será que o gênero ou a raça contam mais que o grau de confiança que a dupla de candidatos majoritários transmite ao eleitorado? Será que o politicamente correto mobiliza uma parte do eleitorado?
Esta análise pretende seguir um caminho diferente. Haverá de ser uma análise conservadora, isto é, que não se baseará em primícias revolucionárias, ideológicas, mas procurará trazer pressupostos consagrados para estimar a corrida eleitoral.
Sem espaço para a terceira via
Primeiramente, a corrida eleitoral não se dará em um ambiente de desencantamento do mundo, como Max Weber define. A eleição será feita dentro de uma organização racional-legal, com as urnas eletrônicas exemplificando perfeitamente esta Dominação. Entretanto, a campanha eleitoral ainda precisará de candidatos que encantem o eleitorado.
Peço que os analistas racionais ou os líderes partidários, que não tenham candidatos com o espírito de um Príncipe Guerreiro, não fiquem aborrecidos com o mensageiro: não há chance para uma terceira via nas condições políticas atuais.
A disputa se dará novamente dentro da busca por aquele que mais encantará o eleitorado, isto é, um líder carismático.
Os principais candidatos que já despontam nas pesquisas apontam para essa preferência do eleitorado. Os dois trazem direta ou indiretamente o carisma na personalidade.
Um já é reconhecido historicamente pelo seu carisma, tanto que já se definiu não como pessoa, mas como ideia. O outro, o traz herdado no clã familiar, já que o detentor original do carisma está impedido de concorrer.
É importante destacar alguma característica que acompanha o carisma. Weber diz que a existência do carisma, de acordo com sua natureza, é especificamente lábil. O portador pode perder o carisma, sentir-se abandonado, privado de sua força. Aí sua missão estará extinta e a esperança aguarda e procura um novo portador.
No teatro político dos movimentos de pré-campanha, assistimos ao primeiro candidato reclamando que o seu encontro com o povo vem sendo um fiasco. Isso pode ser um sinal pontual de fadiga de encantamento deste líder carismático.
Pelo outro candidato, o carisma vem indiretamente, por intermédio de como Weber chamou de rotinização. Significa que a graça estritamente pessoal de um líder carismático é transferida para outra pessoa.
Segundo o sociólogo, “o caso mais frequente de uma objetivação do carisma é a crença em sua transferibilidade pelo laço de sangue”. Isso se dá, ele explica, porque a vinculação do carisma a uma comunidade doméstica ou de linhagem é considerada magicamente agraciada, de modo que somente desse círculo podem proceder os portadores do carisma.
Então, permanecemos na disputa eleitoral entre os dois tipos de carisma. Um que vai se desvanecendo e outro, em que o carisma se rotiniza.
É preciso dizer que os estudos sociológicos de Max Weber se focaram mais em sociedades mais concentradas, como nos principados europeus de pequenos territórios, em que o carisma pessoal era praticamente visível por todos.
Este não é o caso do Brasil. No nosso país, gigante pela própria natureza, a agregação pelo carisma não se dá facilmente, embora as redes sociais, pelo poder de alcance, cumpram um papel fundamental para esse encantamento.
O candidato, mesmo o mais carismático, em uma disputa eleitoral, vai precisar montar palanques pelos diversos rincões brasileiros, para convencer os eleitores de que ele é a melhor escolha. É por causa disso que a análise geográfica é fundamental para a montagem da chapa única que concorrerá a presidente e a vice-Presidente.
A montagem da chapa representa a etapa inicial da disputa eleitoral. Esse estágio não depende de apoio popular direto, mas convém à sabedoria estratégica dos dirigentes.
A importância de Minas Gerais
Ao considerarmos isso, vem à mente um estado, que, na República Velha, sempre participava da chapa do café com leite. Hoje, este estado se pode que é, simbolicamente, é o coração geográfico do Brasil.
É só lembrarmos do mapa. Minas Gerais está no meio do peito do Brasil. Emocionalmente, ele se conecta com o Brasil pelo rio São Francisco, o rio da integração. Minas Gerais integra.
Minas faz por onde ter essa importância para as elites partidárias. É o estado com o segundo maior número de eleitores, atrás apenas de São Paulo.
Além de grande número de eleitores, as divisas de Minas se conectam com três das cinco regiões do Brasil. Pela geografia, Minas é capaz de influenciar o Nordeste, o Centro-Oeste e o Sudeste inteiro.
Minas tem a maior fronteira com a Bahia, que é o estado mais populoso do Nordeste. O norte de Minas, embora não seja o mais rico do estado, tem a economia do agronegócio como a mais relevante.
Graças ao progresso que Minas vem acumulando ao longo dos anos, as cidades do sul baiano, o sertão, também vêm desenvolvendo rapidamente nos últimos tempos. Graças ao agronegócio, aquele sul da Bahia está se tornando uma fronteira de progresso para o Nordeste. As paisagens, antes áridas, agora vão se transformando em campos produtivos verdes, com silos e indústrias de processamento agrícola.
A troca entre os estados é constante, com mineiros cruzando para a Bahia para fazer negócios e baianos vindo para Minas também para confraternizar com parentes. Aquela região se pode dizer como uma verdadeira comunidade, na qual as vidas de mineiros e baianos estão entrelaçadas.
Da mesma forma, o nordeste de Minas e o Triângulo Mineiro recebem e influenciam o Centro-Oeste do Brasil, como no sul mineiro e na zona da mata a aproximação é com São Paulo e Rio de Janeiro.
Tudo isso é facilitado porque Minas Gerais possui a maior malha rodoviária do Brasil, que interliga os 853 municípios do estado. Da mesma forma, as vias de comunicação rodoferroviária conectam os municípios mineiros com as Regiões do Brasil, facilitando as trocas socioeconômicas e unindo as culturas.
São características geográficas e socio-políticas fundamentais para um candidato com carisma prestar atenção e atrair a elite política de lá para formar uma chapa eleitoral.
É a geografia que precisa de atenção dos dirigentes políticos para formar uma chapa consistente e vencer a eleição.
