Instituto Monte Castelo

Por vidas plenas em um país próspero

Carlos Lacerda, Materialismo, Economicismo, Nacionalismo (1961)

No texto abaixo, Carlos Lacerda explica a plataforam da UDN, o partido político liderado por ele. A passagem faz parte de uma mensagem enviada por ele à convenção da UDN no Recife, em 1961. Neste trecho passagem, Lacerda explica que o partido têm princípios cristãos, ao mesmo tempo em que alerta para o risco de que a Igreja abandone sua missão espiritual e passe a se dedicar apenas à “reforma social”. Lacerda, que também foi governador do Rio de Janeiro, é reconhecido como um dos maiores oradores da história do Brasil e um dos mais brilhantes políticos que o país já teve.

Carlos Lacerda (1914-1977)

“O materialismo não pode ser seguido pela UDN. Como partido, não é nem deve ser um partido confessional. Mas a UDN é e deve ser um partido cristão. Creio que ninguém contesta que a UDN visa a preservar e sustentar, levando-os à prática, certos valores e princípios que se costuma resumir chamando-os princípios da civilização cristã, como tal denominada a herança da cultura, do estilo de vida, pensamento e comportamento que recebemos da cultura judaico-greco-latina através de nossos formadores, a religião cristã e a colonização portuguesa. Assim como se tem abusado dessas palavras – civilização cristã — para esquecer o que elas significam, tem-se até zombado delas pretendendo que nada valem diante da miséria e da injustiça que ainda existem no mundo. Como se a própria noção da justiça e, portanto, da injustiça, não a houvéssemos recebido desse patrimônio greco-romano-judeu-cristão que é, afinal, o nosso.

Creio que o nosso partido não pretende afirmar a utopia e parte do sólido princípio de que a miséria e a injustiça sempre existirão no mundo; assim sendo, o dever de um partido político não é o de desprezar a civilização cristã porque comporta a injustiça e a miséria, mas sim o de sustentá-la porque, sem ela, a injustiça e a miséria serão sempre maiores e não darão aos pobres e aos injustiçados nem consolo nem esperança nem oportunidades.

A reforma social que um partido democrático pretende só tem sentido verdadeiramente democrático se partir dos princípios que informam a civilização cristã, a saber:

  1. A ideia de uma luta permanente pelo aperfeiçoamento da sociedade e do homem, partindo da humilde certeza de que a perfeição jamais será atingida.
  2. A ideia de que o homem tem um destino sobrenatural e que a sua missão na terra não se esgota com o pão de cada dia.

    Neste sentido, sem recusar e, ao contrário, recebendo toda a contribuição que a Igreja tem a dar à reforma da sociedade, convém lembrar que ela não é uma associação beneficente nem uma espécie de Federação de Partidos. Se ela esquecer a sua missão sobrenatural, estará consumando o objetivo, exatamente, dos que a querem destruir. O lugar dos reformadores sociais não é na Igreja; é fora dela, ainda que não necessariamente contra ela.
  3. A ideia de que é preciso reduzir quanto possível as diferenças que separam os homens, a fim de que eles possam sentir-se irmãos, com equivalentes oportunidades para se afirmarem e conquistarem, por seus méritos ou por suas necessidades, um lugar ao sol.
  4. Logicamente, a ideia de que a luta de classes e a luta entre nações são incompatíveis com esses princípios, pois as divergências e os conflitos de interesses, que existem e sempre existirão, podem e devem ser resolvidos pelo entendimento e não pela força, pela compreensão e não pela intolerância, pela valorização do sentido espiritual da vida e não pela negação desta.
  5. Claro que um ateu pode ser udenista. Mas a UDN não é um partido ateu. Claro que um materialista pode ser da UDN. Mas o materialismo não é a filosofia da UDN.”

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