por Luiz Jardim*

Depois de 200 anos de Independência, quando se rememora a história do nosso povo, não há como não percebermos como fomos capazes de grandes feitos.

Quando se pensa no período colonial de muitos países, logo vem a imagem que formamos nos bancos escolares. A colônia seria uma terra distante dominada detalhadamente por um povo explorador.

É provável que em algumas colônias a dominação tenha sido implacável e os habitantes locais controlados em todos os sentidos. Situações assim somente poderia acontecer se o país conquistador usasse de excessiva centralização do governo para controlar o país conquistado.

Ao se analisar aspectos históricos do período colonial brasileiro, essa submissão implacável parece que não ocorreu. Como diz José Murilo de Carvalho, “a maior centralização da administração portuguesa era aparente. No último quartel do século XVIII, a autoridade do vice-rei sobre os capitães-generais era mais nominal do que real, excetuadas apenas as capitanias diretamente ligadas ao Rio de Janeiro”.

Tal laxidão perdura por todo período colonial, chamando atenção da metrópole nas proximidades da Independência. “É sintomático que uma das mais importantes medidas tomadas pela corte portuguesa em 1821 foi ordenar a todos os governos de capitanias que obedecessem a Lisboa e não ao príncipe Dom Pedro”, destaca Carvalho.

Como diz Oliveira Viana, no período colonial, os núcleos urbanos ou vilarejos, porventura existentes nas regiões um pouco mais penetrados do interior, eram resultantes da ação urbanizadora das autoridades coloniais. “No período colonial, a vivência urbana nascia da imposição e do castigo”. (…) “Fundar povoações era um serviço prestado ao Rei pelos governadores coloniais, como um serviço de povoamento dos sertões e o da civilização dos gentios”.

Embora já existissem ações impositivas para impor o poder da metrópole, o território do Brasil já era extenso e o mais comum era o país ter a maioria da população dispersa, como hoje ainda é na Amazônia. Geopoliticamente, o enfraquecimento do poder em um território tão grande é esperado se o governo não for centralizado e forte. É possível então que, por causa da característica do território, a centralização das decisões fosse apenas aparente, como Carvalho relata.

Isso seria uma receita para a população da colônia começar a sentir-se apta a governar-se a si mesma.

Esse sentimento de separação já havia surgido bem antes de a realeza de Lisboa vir para o Rio de Janeiro e formar o Reino Unido de Brasil, Portugal e Algarve. Algumas escaramuças já haviam acontecido antes desse advento político.

Embaladas pela influência do Iluminismo, da Revolução Americana e da Revolução Francesa, surgiram a Inconfidência Mineira e a Conjuração Baiana, que se propunham a lutar pela independência. Tais movimentos acabaram antes de produzir algum resultado concreto, porque a Coroa os reprimiu. Entretanto, não conseguiu calar a consciência popular, que iria alcançar o seu intento no sétimo dia de setembro de 1822.

Um ingrediente que teria capacidade de fermentar o acontecimento do dia 7 de setembro foi a transferência da Capital do Reino de Lisboa para o Rio de Janeiro, um fato único dentre todas as nações colonizadas pela Europa. A transformação do Brasil em Reino Unido tornou o Rio de Janeiro a sede do Império Português e o Brasil passou a ser a metrópole do Reino.

Decisão política inusitada e definitiva para a Independência. Carvalho diz que este fato político teve capacidade de unificar o Brasil e formar um governo relativamente estável, tornando possível o desfecho monárquico do Brasil.

Como bem sabemos, a Independência do Brasil não teve a mesma características das havidas nas outras colônias da América. Dos Estados Unidos até a Argentina, passando pelo Haiti, a independência apenas se consumou após guerras, as quais produziram milhares de vítimas.

No Brasil, o período de Reino Unido proporcionou a simulação de como seria uma administração independente.

Lisboa, contudo, comunicara a exigência da Corte para que Dom Pedro retornasse a Portugal, para que se restaurasse o status de Colônia ao Brasil.

Simbólica é a frase na carta da Princesa Leopoldina para o Príncipe Regente Dom Pedro, que viajara a São Paulo:

O Brasil será em vossas mãos um grande país. O Brasil vos quer para seu monarca. Com vosso apoio ou sem vosso apoio, ele fará sua separação. O pomo está maduro, colheio-o já, senão apodrecerá.

Personalidade letrada, a Princesa Leopoldina observara que o Brasil estava como um vulcão. Dizia que até no palácio havia revolucionários e que até portugueses estariam entre os revolucionários.

Após ter experimentado o sabor de Metrópole independente como Reino Unido a Portugal, seria impossível para o povo brasileiro retroagir para o status de súdito de Lisboa.

Recebida a carta em São Paulo, Pedro concorda com a análise de Dona Leopoldina. Nas margens do Rio Ipiranga ele expressa a derradeira frase que tornará independente o Brasil:

INDEPENDÊNCIA OU MORTE

A partir desse momento, o Brasil rompia com Portugal.

Como ainda havia tropas fiéis da antiga metrópole em terras brasileiras, esboçou-se uma reação. Uma guerra de pouca intensidade, que chegou ao fim em Salvador em 2 julho de 1823.

O povo brasileiro, a partir de então, iniciou a própria trajetória rumo ao progresso. Enfrentou desafios e os superou. Experimentou a liberdade, para nunca mais cedê-la sob qualquer ameaça.

Povo simples, mas que quando ultrajado se levanta com altivez para preservar a sua honra e os seus valores, seja por um despudor interno ou por audácia externa.

O povo brasileiro é, como tem sido há 200 anos, livre e corajoso.

* Presidente do Instituto Monte Castelo

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