por Luiz Jardim*

Este artigo surgiu de uma polêmica – diálogo entre amigos de décadas – de que fui impulsionado a participar para contrapor-me a um corriqueiro estigma que a velha mídia tenta impingir ao Presidente da República.

Um dos amigos, mesmo quando declara que votará em Bolsonaro no próximo outubro, reclama por o presidente não ter adotado uma postura mais amena desde o início do governo. Disse isso porque gostou muito da entrevista que o Presidente concedeu ao Flow Podcast. Julgou que ali o Presidente foi claro, descontraído e sincero.

Por que ele não foi assim sempre?, perguntou o meu amigo retoricamente. Continuou lamentando que o Presidente preferiu desperdiçar apoios importantes, ao focar em “extremistas”, não considerando que a maioria é de paz.

Foi nessa hora que a minha razão quase expulsou o meu espírito e fui me transformando no lado sombrio de Sócrates. Interroguei de onde ele tinha tirado a certeza de que o Presidente se cercava de extremistas, deixando a maioria órfã. Perguntei se ele tinha visto isso acontecer ou ouvido essas críticas da velha mídia.

O meu questionamento também foi uma pergunta retórica, porque sabia que ele dizia isso repetindo as manchetes diárias, que o outro círculo dele comentava.

Argumentei que não adiantaria ter sido mais ameno desde o início, porque a elite, especialmente a midiática, nunca aceitou moralmente aquela eleição. Desde o Dia 1, somente o criticam e o xingam de todos os adjetivos, relativos aos ditadores.

O atual discurso da elite é um paradoxo moral. Ao mesmo tempo em que acusa Bolsonaro de genocida e ditador, aplaude a prisão de parlamentar por falar um absurdo retórico. Induz a população a ver o Presidente como um meliante, mas é doce com outro candidato, líder “descondenado” de três instâncias jurídicas por uma questão processual, suscitada na undécima hora dos recursos.

Na sua tréplica, o meu amigo me interrogou sobre o que é elite. Não pensei em dizer-lhe a definição clássica dela. Preferi aprofundar a minha ideia da aversão dela ao Bolsonaro. Procurei na minha memória o livro que abordava por que a elite se descolara da massa.

Vasculhei o meu depósito de livros e achei aquele que explica sobre o afastamento da elite da comunidade, ou do povo do qual deveria ser a nata, ou os líderes a guiar a sociedade.

O título do livro não poderia ser mais oportuno para sintetizar o que queria dizer ao meu amigo: A Rebelião das Elites e a Traição da Democracia, de Christopher Lasch, de 1995.

Esse livro adota um enfoque diferente daquele de Ortega y Gasset em A Rebelião das Massas, de 1932. Em comum, ambos procuram dar destaque e explicar por que a sociedade perde a coesão.

Mas, enquanto Gasset analisava o Homem-Massa surgido da mentalidade bolchevique, julgando-o como criança mimada da história, por expressar ódio mortal por tudo que não fosse ela mesma, Lasch diz que as novas elites são muito mais cosmopolitas, mais inquietas e migratórias.

Analisando a sociedade dos Estados Unidos, ele diz que essas novas elites se rebelam contra os hábitos médios da população do país: uma nação tecnologicamente atrasada, politicamente reacionária, medíocre em seus gostos, presunçosa e complacente, insípida e deselegante.

A lealdade delas é internacional e não regional, nacional ou local. Elas têm mais afinidade com suas similares em Bruxelas ou Hong Kong do que com os seus compatriotas. Dão crédito a uma garotinha de um país gelado sobre questões ambientais ao invés de procurar conhecer metodologia do INPE sobre a Amazônia.

As novas elites profissionais e empresariais são definidas, além da renda em rápida ascensão – novos ricos –, por um estilo de vida que a distingue do resto da população. Elas constituem uma nova classe porque suas subsistências não se baseiam tanto na propriedade, mas na manipulação de informações e na perícia profissional.

Trata-se de uma casta unida por um comportamento mais apropriado ao elitismo do que à democracia. Ela engloba uma grande variedade de ocupações: corretores, consultores, banqueiros, cientistas, editores, redatores, publicitários, jornalistas, produtores e diretores de televisão, artistas, escritores e professores universitários.

Por mais que tenham formações diferentes, o fator unificador é a sua cultura do discurso crítico.

Nos círculos mais altos dessa nova elite, a característica essencial é uma atitude secular, analítica. Exageram a intelectualidade e a racionalização da vida, minimizando o incessante fascínio pela busca frenética de lucros. Ou seja, usam desculpas humanistas para aplacar o sentimento de culpa por serem elite.

Quero explicar ao meu amigo que, na nossa realidade social, essa nova elite são as “classes falantes”. Formam círculos – diríamos hoje bolhas –  em que o poder financeiro, político, artístico e de entretenimento se sobrepõem e se tornam intercambiáveis.

Diz Lasch que executivos se habituam às entrevistas na televisão, criando a ilusão de movimentos políticos. Artistas de televisão e cantores se tornam mestres da política. Âncoras e entrevistadores se tornam celebridades; celebridades do mundo do entretenimento assumem o papel de críticos sociais.

“Enquanto se imaginam em uma cruzada para sanear a sociedade dos vícios do fumo, para censurar tudo, inclusive discurso hostil, lutam para ampliar as escolhas pessoais, em questões para as quais as pessoas em geral sentem a necessidade de sólidas regras morais”, afirma Lasch.

Como aconteceu na entrevista do Presidente Bolsonaro à TV Globo, os entrevistadores traíram o seu rancor dissimulado sob a face sorridente da benevolência. Tornaram-se petulantes, prepotentes e intolerantes. No calor da controvérsia política, como diz Lasch, “eles acham impossível esconder seu desagrado com aquele que teimosamente se recusava a ver a luz”.

Bolsonaro é o alvo principal dessa nova elite. Eles olham a massa conservadora que apoia o Presidente com um misto de desprezo e apreensão.

Analogamente ao que Lasch fala da América média, no Brasil as novas elites veem os conservadores simbolizando tudo aquilo que atrapalha o progresso: valores familiares, patriotismo irracional, fundamentalismo religioso, homofobia, opiniões retrógradas sobre as mulheres.

O Presidente e os seus apoiadores são vistos por essa nova elite como “irremediavelmente deselegantes, grosseiros, provincianos, desinformados sobre as tendências intelectuais, adeptos de romances ordinários de amor e de aventura”. Enfim, os âncoras do Jornal Nacional acham os apoiadores e o Presidente uns cafonas desprezíveis.

A síntese de tudo é a crescente insularidade das elites em relação ao povo. O que vemos é o debate político restringido às elites falantes, que têm acesso aos meios de comunicação. Tornam-se cada vez mais fechados e dogmáticos. Exatamente o oposto à democracia.

Isso não é surpresa, porque as elites não conservadoras sempre defenderam a ideia de que a democracia pode dispensar as virtudes civis. Por esse ponto de vista, são as instituições liberais e não o caráter dos cidadãos que fazem a democracia funcionar. O caráter individual ficaria subsumido na instituição. Ou o indivíduo seria a própria instituição, como a frase de outrora: O Estado sou eu.

Aí está a explicação para que ministros confundam a própria pessoa com a instituição STF. Por isso, acusam como um atentado à democracia as críticas populares ao comportamento jurídico de juízes supremos.

Lasch, citando Walter Whitman, diz que a democracia não é um fim em si mesmo. O teste da democracia seria saber se ela seria capaz de produzir um conjunto de heróis, caráteres, proezas, sofrimento, glória e desgraça comum a todos, característico de todos. Significa dizer que se fale das virtudes impessoais, como a firmeza, trabalho, coragem moral, honestidade.

Padrões comuns são absolutamente indispensáveis a uma sociedade democrática. As sociedades organizadas em torno de uma hierarquia de privilégio podem suportar padrões múltiplos; é uma oligarquia, mas não uma democracia.

Talvez neste ponto, o meu amigo perceba a caracterização da distensão entre o povo e as novas elites. Estas consideram que aquelas virtudes impessoais não mais são necessárias para elas.

Por essa mentalidade elitista, não consideram o personagem Bolsonaro como um deles. Debatem-se contra ele, porque se sentem como o próprio farol das massas, não esse Presidente da República.

Quando enxergam que ele consegue comunicar-se, liderando as massas em direção àquelas virtudes impessoais, sentem o poder que usufruíram esvaindo-se pelas mãos como areia.

Assim, o ambiente político brasileiro, polarizado como costuma ser em uma sociedade vibrante, pode ser resumida como a luta entre a Oligarquia e a Democracia.

Os democratas se remetem ao povo. Os oligarcas não podem ofender o pequeno círculo

* Presidente do Instituto Monte Castelo.

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