O problema da inflação deve ser avaliado pelas leis naturais da economia, não pela lei do homem

De quem é a culpa por tudo custar caro?

Se você perguntar a boa parte dos economistas o que eles definem como inflação, terá a seguinte resposta: “Inflação é o aumento generalizado e persistente dos preços.” [1] E quem aumenta os preços? Os empresários, que cobram por produtos e serviços.

Por essa lógica, a inflação é culpa dos empresários. Se o povo sofre para pagar o pão e a gasolina, é porque, em tese, empresas gananciosas remarcam os preços para obter mais lucros. Imediatamente percebemos as consequências desse pensamento. Se a inflação decorre do comportamento dos empresários, a política de combate avança contra os empresários. Planos econômicos, leis e jurisprudências miram o suposto culpado.

O Brasil é célebre por medidas estatais nesse sentido. Sendo o empresário o problema, o governante tenta proibi-lo de subir os preços. Se o problema são os preços subindo, a lei garante correção monetária. Se o problema é simples assim, os juízes tentam resolver com sentenças.

Uma rápida olhada na História resgata sucessivos casos como o Plano Cruzado (que implantou o controle de preços), o Código de Defesa do Consumidor (que proíbe aumento de preços “sem justa causa”) e diversas decisões judiciais que determinam redução de preço de passagens de ônibus ou de combustíveis.

Contudo, essa definição difundida de inflação enxerga o assunto pela perspectiva equivocada. O aumento dos preços não é a causa do problema; ele é a consequência. Primeiro acontece um fenômeno anterior, pouco discutido, que provoca subidas de preços à revelia da vontade dos empresários.

O que causa a inflação verdadeiramente é a oferta exagerada de moeda. Esse é o nome chique para o despejo de dinheiro que os governos fazem na sociedade. Como o dinheiro moderno é apenas papel colorido ou números de computador, os governos têm poder de criar dinheiro indiscriminadamente.

Imagine uma ilha deserta com quatro náufragos. Um deles localiza uma caixa com a água mineral do navio. Os outros localizam notas de dinheiro espalhadas pelo acidente. Cada um dos três náufragos endinheirados junta dez reais. O primeiro náufrago precisa decidir quanto cobrar por cada garrafa. Se ele cobra 40 reais por garrafa, nem mesmo a união dos demais será suficiente para pagar. Então o dono da água precisa arbitrar o preço conforme a quantidade de dinheiro existente. Ele no máximo cobra trinta reais, que é tudo o que os demais têm.

Agora imagine que um dos endinheirados localiza uma carteira abandonada com mais 50 reais. O limite total de dinheiro na ilha agora é de 80 reais, o que libera o dono da água para cobrar mais pelas mesmas garrafas de água. Afinal, em uma ilha deserta, a oferta de água mineral não cresce facilmente.

Leve este raciocínio para um país. Se surge dinheiro novo onde há os mesmos bens e serviços, a tendência é de dinheiro mais abundante e de produtos/serviços limitados. E o que é escasso fica mais valioso (e mais caro). Quem tem o poder de jorrar esse dinheiro na economia é o governo. Esse é o fenômeno da inflação.

É fácil imaginar por que é tão atrativo para os governos imprimirem dinheiro. Assim eles podem dar mais aumentos para o funcionalismo, contratar mais obras e pagar mais benefícios sociais. Imprimir dinheiro é popular. Mas se fosse tão simples, todos os governos fariam isso, e não haveria pobreza.

Na prática, imprimir dinheiro provoca a disseminação da miséria. Quem ganha esse dinheiro novo primeiro fica de fato mais rico, mas a maioria da população só vai receber esse fluxo de dinheiro muito depois, quando os preços terão disparado.

Como exemplo, podemos pensar em uma construtora hipotética contratada pelo governo com esse tanto de dinheiro. Ela é paga com dinheiro novo para fazer uma ponte. Esse dinheiro novo é usado para comprar maquinário, o que enriquece o dono da fábrica de máquinas. Este dono paga então seus funcionários, que usam o dinheiro novo para ir ao dentista. O dentista recebe aumento de demanda pelas suas consultas, que ficam mais caras. A dona de casa que vai ao dentista e não recebeu o dinheiro novo da ponte encontra um tratamento dentário mais caro.

A seguir, apresentamos o gráfico dos meios de pagamento M4 nos últimos 20 anos. O M4 reúne o papel-moeda em poder do público, depósitos em contas correntes nos bancos, depósitos em cadernetas de poupança, operações compromissadas com títulos públicos e privados, e os títulos públicos do governo federal. Veja como essa montanha de dinheiro só cresce no Brasil. O gráfico é da série 27815 das séries temporais do Banco Central e deve ser calculado multiplicando por mil.

Enquanto isso, o PIB brasileiro em dólares não mudou de 2007 a 2020. Nos dois anos o PIB foi de US$ 1,4 trilhões de dólares (dados do Banco Mundial). Perceba a combinação desastrosa de mais dinheiro disponível para o mesmo nível de riqueza. Essa riqueza existente será disputada por muito mais dinheiro na praça. Os detentores da riqueza (ações, mercadorias, produtos, serviços, …) serão cada vez mais procurados por mais dinheiro. Resultado: inflação.

Como diz o mestre em Economia da Escola Austríaca Fernando Ulrich [2], inflação é a oferta e demanda aplicada ao dinheiro. Assim como uma oferta maior de bananas faz as bananas ficarem mais baratas, a oferta indiscriminada de dinheiro faz esse dinheiro perder valor.

No fim das contas, empresários são passageiros no trem desgovernado da política monetária. Eles aumentaram seus preços pois viram os custos, os salários, as matérias-primas ficarem mais caras na hora de produzir seus produtos. [3] Assim funcionam as leis da economia; elas independem da vontade do político de plantão. As leis discutidas nos gabinetes de Brasília fazem bem maior se impedissem interferências indevidas em vez de interferirem elas próprias.

[1] Essa definição foi encontrada nos sites do Banco Central, IBGE e Infomoney em acessos de 2/6/2022. Gremaud, Vasconcelos e Toneto Júnior seguem a mesma linha no seu livro “Economia brasileira contemporânea”.
[2]Frase dita no podcast Os Sócios, episódio 71.
[3] Essa definição de inflação segue a Teoria Quantitativa da Moeda e a escola monetarista de economia, de economistas como Milton Friedman e Irving Fisher.

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