por Luiz Jardim*

A corrida eleitoral já fez a volta de apresentação. A disputa ainda não teve a luz verde, mas o grid de largada já está definido.

Há mais de um século, um oráculo já apontava quem tem a potência para ganhar as eleições deste ano no Brasil. É na primeira fila que eles se posicionam e assim chegarão no final se nenhum caso fortuito ocorrer durante as voltas.

É preciso prestar atenção no significado enigmático das palavras do oráculo, para entender-se porque o futuro pode ser visto daqui, do presente.

No decorrer de sua vasta obra, Max Weber, o Oráculo, descrevia o desencantamento do mundo, como uma fase em que a vida social havia sido reduzida à lógica racional. O mundo social estruturado na tradição e na crença religiosa ia perdendo relevância.

Ele indicava que o mundo moderno racional deu lugar a uma complexa rede organizacional, estruturada pela fria burocracia e pela hierarquia. Apontava que a consequência seria o crescente sentimento de abandono e apatia do homem, por causa do desolamento causado pelo fatalismo de um mundo mecânico-racional.

Esse clima de fatalismo somente poderia ser contido com o surgimento de um Herói, que estabeleceria uma dominação carismática. Dominação que se estabelece pela fé em revelações e em heróis.

Percebia assim, porque via a história da sociedade como uma tensão constante entre a racionalização e a desracionalização.

Weber glorifica o encantamento social. Para ele, racionalismo e carisma criam uma polaridade essencial na vida social. O encantamento faria as forças sociais afetivas, não racionais, romperem de forma abrupta e radical as rotinas do dia-a-dia, gerando algo radicalmente novo.

Ao olhar-se o Brasil social de hoje, o que assistimos é um processo dialético, cuja tensão já havia sido captada por Max Weber, no conflito entre carisma e racionalismo.

Percebemos a tensão quando conhecemos as decisões e assistimos a crescente rotina de discursos fora dos autos dos ministros do STF. Parecem que sentem a perda do conforto com a efervescência do espírito popular, que se manifesta nas redes sociais e nas praças.

Como já se declararam filhos diretos do iluminismo, com o dever de empurrar a história, não aceitam o encantamento pelo carisma.

Talvez por defesa própria, com medo de perderem a própria legitimidade, não hesitam em tentar matar simbolicamente o sentimento de fé em um poder extracotidiano, que só alguns líderes carismáticos são capazes de expressar.

Para isso, não se acanham, que mesmo no ideal racional, usem as armas mais apropriadas aos líderes carismáticos.

Weber diz que uma Justiça genuinamente carismática, em sua forma pura, é o contraste extremo às vinculações formais e tradicionais, sendo independente das deduções racionalistas que partem de conceitos abstratos. Inverte os valores e rompe soberanamente com todas as normas tradicionais ou racionais: “está escrito, mas eu vos digo…”

Não seria essa a percepção do povo comum que anda pelas ruas, buscando o seu sustento, sobre a ação do Excelso Tribunal? Mesmo que a população tenha confiança nas Forças Armadas, eles agora forçam a retórica de que elas estariam sendo manipuladas para tirar a confiança das urnas eletrônicas.

Talvez sintam que não conseguem empurrar a história com eficiência. Lutam contra uma dominação, em que a vontade do dominador influencia as ações de outras pessoas, de um modo que o dominado as faz como se as tirasse da própria convicção. Lutam contra a pureza da voz do povo, acusando de “fake news”.

Caberia um pouco mais de parcimônia, já que Weber explica que a autoridade carismática é especificamente fugaz. O portador dela pode perder o carisma. Assim, sua missão estará extinta e a esperança aguarda e procura um novo portador. A luz dos portadores do carisma parece cegá-los.

Os racionalistas não consideram que a linha de largada está formada com dois dominadores carismáticos. No curto prazo, a ânsia política por empurrar a história em direção à racionalidade não será fácil.

O cenário eleitoral mostra uma divisão acirrada sobre quem será eleito o novo portador do carisma que encantará o povo brasileiro.

A personalidade carismática seria derivada da autoridade das provas de seus poderes na vida. O líder carismático deve fazer milagres se pretende ser um profeta; deve realizar atos heroicos se pretende ser um líder guerreiro. Sobretudo, deve provar sua missão divina no bem-estar daqueles que a ele se entregam.

Lula deve trazer para sua campanha a propaganda do milagre da multiplicação dos pães eliminando a fome, por intermédio da consolidação de programas de renda mínima, que foi chamado de Bolsa Família. Ele mesmo, sem respeitar a racionalidade da estatística, confessou ter inventado números sobre o total de famintos no Brasil.

Bolsonaro deverá mostrar que não houve um combatente como ele. Guerreou contra as medidas do judiciário e dos governadores, que decretaram o fim de empresas e empregos durante a pandemia. Lutou até a última instância contra a retórica jornalística do fecha tudo e a economia se vê depois.

Weber ainda diz que um líder carismático, que conserva em aspectos importantes o seu caráter autêntico, expia os próprios pecados quando a sua administração não consegue vencer algum problema que atinge os dominados.

Bolsonaro, embora fosse contra o fechamento dos negócios, reformulou a sua política liberal de pouca interferência na economia. Criou o auxílio emergencial estatal, direcionando um valor monetário para as pessoas que perderam o emprego por causa da propaganda do “lockdown”, que agora a ciência provou ter sido um erro grotesco.

Depois, percebendo que os efeitos sociais da pandemia seriam duradouros, reformulou o programa Bolsa-Família, criando o Auxílio Brasil. Auxílio que mudou o nome e a característica da caridade pública. Transformou o subsídio em incentivo ao progresso escolar e esportivo dos filhos dos beneficiados.

O poder do carisma se fundamenta na fé em revelações e em heróis. Weber diz que essa fé revoluciona os homens de dentro para fora e procura transformar as coisas e as ordens segundo o seu querer revolucionário.

Sem acidentes de percurso, os brasileiros, transformados, participarão das cerimônias do lulismo e do bolsonarismo nestas eleições.

Os novos iluministas precisam compreender que o fenômeno eleitoral atual é o oposto à racionalização que o STF insiste. A racionalização, no limite, se realiza de tal modo que a grande massa de liderados aprende somente a apropriar-se dos resultados exteriores, técnicos, para os seus interesses.

A dominação racional revoluciona o tempo de fora para dentro, simbolizado pela apropriação material dos interesses. Já o carisma o faz de dentro para fora, a partir da transformação espiritual do modo de pensar dos dominados.

Ao final deste ano, saberemos em quem o povo vai reconhecer o carisma. Aquele que perder se transformará em um simples homem ou em um usurpador culpável.

Esperemos então novembro para saber quem continuará a revolução social em curso. A dominação carismática genuína desconhece disposições jurídicas, regulamentos abstratos e a jurisdição formal. Seu direito objetivo é o resultado da vivência extremamente pessoal de graça celestial e força heroica do líder.

*Luiz Jardim é presidente do Instituto Monte Castelo, advogado e mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília