por Felipe Melo

Quando me pediram para escrever um pequeno artigo para o Instituto Monte Castelo por ocasião do Dia dos Pais, confesso que fiquei, a princípio, um pouco perdido. Não é que não haja coisas a se escrever sobre paternidade. Pelo contrário: há tanta coisa para ser dita que é difícil filtrar.

Pensei inicialmente em apontar todas as abundantes evidências científicas de que a ausência paterna é um fator de risco grave para criminalidade, evasão escolar, gravidez precoce, abuso de álcool, consumo de drogas e abuso sexual. Também pensei em apontar para o quadro mais amplo da crise de paternidade que dominou o Ocidente desde a revolução sexual, passando pela teoria de gênero, e de como isso se manifesta de modo sintomático nos novos movimentos políticos (a esse respeito, recomendo este artigo maravilhoso de Mary Eberstadt). No entanto, optei por dar a este texto um tom mais pessoal, talvez até mais íntimo do que seja recomendável – pelo que, tenho certeza, contarei com a sua compreensão.

No dia 14 de março, descobri que minha esposa estava grávida. Ela me surpreendeu com essa notícia de madrugada, quando me levantei para beber água. O sono me impediu de reagir com surpresa, eu acho, mas aquele dia foi de muita antecipação. Ela foi a um laboratório logo de manhã e fez exame de sangue para confirmar o resultado do teste de gravidez. Batata: ela estava grávida de, no máximo, duas semanas.

Quando me perguntam como está a gestação, em quantas semanas está ou para quando é esperado o nascimento do Augusto – sim, é um menino –, às vezes aproveitam para perguntar se estou ansioso para ser pai. Com delicadeza, costumo corrigir: eu já sou pai. Mesmo se a gestação de minha esposa não seguisse a termo e perdêssemos nosso filho, ainda assim seríamos pai e mãe. Ele não deixaria de existir.

A paternidade é um privilégio imensurável. Para aqueles que, como eu, acreditam em Deus, é incrível que pensar que Ele dê a dois filhos Seus a missão de gerar, criar e educar uma nova vida. Nós, por sermos humanos, carecemos daqueles instintos que guiam a vida animal, de maneira que a criação de um filho depende de decisões que sejam temperadas por escolhas racionais e emocionais, e que estejam calcadas em algo frequentemente esquecido: virtude.

Junto com esse privilégio, também há uma grande responsabilidade. A criação que damos para nossos filhos informa a maneira como ele enxerga o mundo e a si mesmo. Ser educado em um lar harmonioso, com carinho, fé e ordem é mais do que um diferencial para crescer no mundo volátil e incerto de hoje: trata-se de uma exigência da própria dignidade humana. E, para isso, é fundamental que haja a presença diligente, firme e amorosa de um pai.

No entanto, ninguém nasce sabendo ser pai. A paternidade é um ofício que se vai aprendendo à custa de dores e sacrifícios. É preciso ter a disposição de sair de si, de viver pelo outro, de não temer o erro e de aprender a recomeçar, sempre que for preciso. Hoje, há uma oferta considerável de livros, podcasts e cursos que podem nos ajudar a ser bons pais, materiais de qualidade elaborados com base no que a ciência e a filosofia têm de melhor.

Nessa era de incertezas, não é difícil notar como as pessoas estão confusas. Muitos acham que a figura paterna é, na melhor das hipóteses, uma presença inconveniente e decorativa num mundo pós-familiar. A reboque de todo o ressentimento que décadas de ideologia feminista geraram, e que se tornaram lugares-comuns facilmente observados na mídia, o pai é frequentemente retratado como aquela criatura irrelevante, comicamente atrapalhada, a quem ninguém dá importância justamente por não possuir nenhuma. Quando não consegue se livrar de sua “masculinidade tóxica” – esse espantalho que usam para atacar qualquer traço de virilidade –, o pai é retratado como um tirano sanguinário, o protótipo do perfeito troglodita, um sinal de tempos há muito ultrapassados.

Se queremos ver a nossa sociedade se curando de seus mais graves problemas, precisamos começar a dar à família sua verdadeira importância. E, para que isso aconteça, é urgente começarmos a apostar também na valorização paterna. Não se trata aqui de reconhecimentos frívolos e vazios, de tapinhas nas costas e propagandas melodramáticas na televisão, mas de algo mais concreto e muito mais humano: reconhecer os acertos, valorizar os sacrifícios e ajudar sempre, e cada vez mais, nos momentos de dificuldade.

Augusto deve nascer em meados de novembro. Até lá, aguardarei, ansioso de expectativa, para tê-lo em meus braços, beijar o seu rosto e dar-lhe todo o amor que meu coração puder. De todos os dias dos pais, este será, para mim, o mais especial. Torço para que seja assim para você também.

Feliz Dia dos Pais!

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