por Luiz Hertel Santiago

O estado americano do Texas deixou, em março, de impor o uso de máscaras à população e passou a permitir que os negócios do estado voltassem a funcionar sem qualquer restrição ao número de clientes nos estabelecimentos. Agora, para a surpresa de muitos, um novo estudo aponta que a reabertura do Texas não teve impacto sobre o número de casos de COVID-19 e de mortes por COVID-19.

Em 2 de março de 2021, o governador do Texas, o republicano Greg Abbott, assinou uma ordem executiva na qual ele retirava a obrigatoriedade do uso de máscaras no estado, e permitia que todos os negócios e estabelecimentos voltassem a funcionar com 100% de suas capacidades.  A ordem começou a entrar em vigor no dia 10 de março.

Durante o anúncio, que foi feito em discurso na Câmara de Comércio de Lubbock, o governador procurou deixar claro que o COVID não desapareceu, mas que devido às vacinações, recuperações, hospitalizações reduzidas e práticas de segurança usadas pelos texanos, as leis de restrições não eram mais necessárias. De acordo com o governador, não se trataria de um abandono das práticas de segurança, mas sim uma lembrança de que cada cidadão tem um papel importante na sua própria segurança pessoal, bem como na dos outros. 

A decisão deixou espaço para que os proprietários dos negócios no estado possam decidir se irão adotar protocolos adicionais de segurança em seus estabelecimentos. Contudo, um juiz de condado poderá lançar mão de estratégias de mitigação do COVID-19, caso a as hospitalizações por COVID-19 em uma região hospitalar passem a representar mais do que 15% da ocupação dos leitos disponíveis naquela região por 7 dias seguidos. Tais medidas, no entanto, não podem incluir a prisão de quem não seguir as regras a respeito do COVID-19, e também não podem incluir a penalização de quem não estiver usando máscara.

O comunicado de imprensa que foi postado no site oficial do governo do Texas afirma que o fim das restrições ocorreu em um momento em que cerca de 5,7 milhões de vacinas já haviam sido ministradas no estado. A expectativa era de ter 7 milhões de vacinados no estado até o dia 10 de março de 2021, e que metade  dos idosos texanos já teriam sido vacinados. E, ao final de março, que todos os idosos, que quisessem, já estariam vacinados.

Repercussão inicial da Reabertura

Em matéria para o Washington Post, Katie Shepherd relata que a medida causou preocupação entre oficiais de saúde. Eles temiam que o abrandamento das medidas de restrição, antes das vacinas, poderia causar um novo pico, tanto em números de casos como de mortes. O artigo também traz declarações dadas por políticos do partido democrata. Segundo o deputado democrata Joaquim Castro, “A falha do governador Abbott em escutar a ciência e os conselhos médicos vai custar aos texanos suas vidas”.

A Fox News, em reportagem especial,  destacou a reação do presidente Joe Biden às medidas de reabertura que haviam sido anunciadas pelos governadores do Texas e do Mississipi. Segundo o presidente americano, “A última coisa que precisamos é o pensamento Neandertal de que, enquanto isso, tudo está bem, tire sua máscara, esqueça isso.” Preocupado, o presidente americano disse que eles iriam “perder milhares a mais”. A reportagem também trouxe falas da secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki. Psaki alertou que os Estados Unidos pagaram o preço devido a seus líderes políticos que ignoraram a ciência.

Estudo sobre os impactos da reabertura

Recentemente foi publicado pelo National Bureau for Economic Research, um instituto independente de pesquisas,  o estudo intitulado The Limits of Reopening Policy to Alter Economic Behavior: Evidence from Texas. No estudo, os pesquisadores Dave Dhaval, Joseph Sabia e Samuel Safford se propuseram a investigar a influência que a política de reabertura do Texas teve sobre a mobilidade da população, a taxa de novos casos de COVID-19, e sobre o emprego a curto prazo.

O resultado dos estudos pode surpreender pessoas de diversas inclinações. Por um lado, o estudo revela que não encontrou evidência de que a política de reabertura tenha gerado grande impacto no comportamento relativo a ficar dentro de casa. Já sobre o comportamento de andar a pé, não foi identificado qualquer impacto. A análise do comportamento com relação a mobilidade se deu através do uso de dados randomizados de smartphones e uma abordagem de controle sintético. A avaliação do tráfego a pé abordou locais como restaurantes, bares,  locais de entretenimento, dentre outros. A pesquisa sobre o segundo ponto revelou que não foi identificado impacto da reabertura sobre o número de casos de COVID-19 e de mortalidade por COVID-19 no Texas. O mesmo se mostrou verdade quando sondaram o crescimento do número de casos comparando condados mais urbanizados com os menos urbanizados, bem como ao comparar aqueles em que Trump ou Biden tiveram mais votos na eleição de 2020. Por fim, os pesquisadores também não encontraram evidência demonstrando que a taxa de emprego a curto prazo no estado tenha sido impactada.

A situação é complexa e deve-se tomar cuidado ao se utilizar os resultados de uma pesquisa para tirar conclusões sobre outros contextos. Contudo, certamente o estudo do caso da reabertura do Texas, com sua revogação drástica das restrições e do uso obrigatório de máscara, é um caso que devemos continuar acompanhando de perto porque coloca em teste premissas importantes do debate sobre medidas restritivas.

Fontes:

https://gov.texas.gov/news/post/governor-abbott-lifts-mask-mandate-opens-texas-100-percent;

https://www.washingtonpost.com/nation/2021/03/03/texas-mississippi-mask-mandate-backlash/;

https://www.foxnews.com/transcript/biden-slams-texas-mississippi-for-covid-reopening-measures;

https://www.nber.org/papers/w28804

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