A crise do covid-19 evidenciou muitos problemas na política e na administração pública no país. Nos últimos dias, em especial, um deles se tornou mais evidente: a nossa dependência de países estrangeiros para obter itens essenciais no campo da saúde. O Brasil precisou solicitar oxigênio dos Estados Unidos, produtos químicos da China e vacina da Índia.

Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que a pandemia é um evento raro, de dimensões jamais vistas na nossa geração. Mas, feitos os devidos descontos, os gestores públicos, atuais e passados, não podem ser isentados de sua responsabilidade pelas falhas no enfrentamento à pandemia que, segundo os dados oficiais, tirou a vida de mais de 200 mil brasileiros.

No caso dos insumos da saúde, a negligência é ainda mais intolerável do que em outros setores da gestão pública. Cada falha de logística e cada desvio de recursos custam vidas humanas. Mas, além de fatores circunstanciais, um problema mais amplo tem prejudicado a resposta à pandemia no país: a falta de capacidade da indústria farmacêutica nacional para suprir a demanda gerada pela pandemia.

Apesar da tentação por respostas aparentemente simples, a solução não é inchar ainda mais o Estado ou criar incentivos artificiais para favorecer determinados grupos com acesso ao poder (vide o exemplo da indústria automotiva: a Ford, beneficiária de políticas bilionárias de “incentivo à indústria” nos últimos anos, resolveu deixar o país).

O caminho para aumentar a autonomia do Brasil nesta área é tornar o país mais atraente para as grandes indústrias. Isso exige uma política permanente que permita a competição, ofereça marcos legais simples e eficientes, e que seja acompanhada por um clima político de estabilidade e previsibilidade. Grandes empresas estrangeiras não se sentem bem-vindas em países com instabilidade jurídica, confusão tributária e corrupção endêmica.

Por sua dimensão, sua população significativa, seu lugar de maior país da América Latina e seu potencial econômico (aliados, agora, ao baixo custo da mão-de-obra brasileira em dólar, já que o real está desvalorizado), o Brasil tem boas razões para atrair grandes companhias farmacêuticas – para não falar do potencial de desenvolvermos nossas próprias pesquisas científicas de ponta. Mas isso não vai acontecer até que o país tenha as condições legais, institucionais e jurídicas para tanto.

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