No dia do primeiro turno das eleições municipais, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Luís Roberto Barroso, afirmou que talvez seja possível implementar o voto remoto, pelo celular, já em 2022.

Poucas horas depois, o TSE deixava o país na expectativa por informações, ao passo que a apuração dos votos avançava muito lentamente e o tribunal não explicava de forma célere a razão do atraso.

O episódio deixou claro que o sistema eleitoral precisa de mais solidez e transparência, não de menos.

As urnas eletrônicas não têm acesso à internet. Isso significa que, para se promover uma fraude em massa, é preciso manipular as urnas pessoalmente, uma por uma. Além disso, o boletim de urna, divulgado publicamente no próprio local da votação, permite a conferência dos dados de cada máquina com o resultado anunciado pelo TSE.

Já voto online, por meio de aparelhos de celular comuns, abre as portas para invasões de hackers. E, neste caso, não haverá boletim de urna para que se faça a conferência.

Além disso, mesmo que se parta do pressuposto de que o sistema é plenamente confiável no aspecto tecnológico, o voto por celular não cumpre um pressuposto básico: a impossibilidade de violação do sigilo.

O Brasil tem grandes áreas sob controle do crime organizado. Não é preciso ter uma imaginação fértil para concluir que, com a possibilidade de voto pelo celular, eleitores serão coagidos a votar em candidatos específicos.

O voto precisa ser absolutamente secreto. E, para ser absolutamente secreto, precisa ser feito presencialmente, em urnas invioláveis.

Se faltava um exemplo concreto dos riscos do voto a distância, o caso recente dos Estados Unidos deve bastar. Por causa da pandemia do covid-19, muitos estados americanos alteraram suas regras eleitorais para permitir que qualquer pessoa pudesse votar pelo correio. O resultado foi uma apuração confusa, repleta de denúncias de fraudes. Na hipótese menos grave, isso reduz a confiabilidade do sistema aos olhos do eleitor – e, assim, diminui a confiança na própria democracia.

O voto a distância é uma ideia condenável e que não pode ser levada adiante.