por Gabriel de Arruda Castro

A celebração da independência do país é, como regra, uma celebração da razão de existir daquela nação. Quando os Estados Unidos comemoram o 4 de Julho, por exemplo, estão comemorando a rejeição de tudo o que a Inglaterra simbolizava para os colonos da América em 1776.

A Independência brasileira, entretanto, foi um episódio mais complexo: Dom Pedro I, o responsável pela separação de Brasil de Portugal, estava nos separando, na verdade, do próprio pai dele, o rei português Dom João VI. E, apesar da independência, Dom Pedro I manteve laços tão intensos com Portugal que, três anos e meio após a separação, tornou-se o rei de seu próprio país de origem. Lá, ele é conhecido com Dom Pedro IV.

Se há algo particular no caráter da independência brasileira, é isto: a nossa separação não foi uma ruptura dramática, nem uma rejeição dos valores da civilização portuguesa. Foi, na verdade, uma espécie de reforma administrativa, e necessária, de um território que já havia se tornado maior do que sua matriz. Foi a independência do filho que se muda da casa dos pais sem romper os vínculos com a família.

Por isso, celebrar a independência do Brasil é, ao mesmo tempo, comemorar nossa existência como nação livre e rememorar nossa ligação com Portugal. O Brasil é filho de Portugal, com todos as vantagens e desvantagens que isso nos traz. E as vantagens são mais numerosas. Apesar de seu território diminuto e de sua população reduzida, Portugal foi capaz de construir uma nação rica e altiva, mas ao mesmo tempo tolerante e acolhedora. É verdade que os povos indígenas e africanos, assim como os imigrantes que vieram depois, deram contribuições essenciais à identidade nacional. Mas o Brasil é uma invenção portuguesa.

Ao analisar o fracasso da revolução francesa, Alexis de Tocqueville observou que o revolucionários pretendiam “separar sua história em duas partes, por assim dizer, e abrir um abismo entre o seu passado e o seu futuro”. A construção do futuro do Brasil, seja ele qual for, não pode ter a pretensão de apagar as nossas origens.