por Luiz Jardim

Mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília e membro do Instituto Monte Castelo


A História se repete? Karl Marx dizia que sim, e que quando o faz, na primeira vez ela retorna com tragédia; na segunda, como farsa. O ceticismo que caracteriza o pensamento conservador recomenda questionar a famosa citação do pessimista barbudo. Não fui buscar referências nos dados falsificados do comunista alemão para identificar o “Zeitgeist” que vive o Brasil dos dias de hoje. Talvez seja melhor ler Tocqueville.

Pela retórica dos “beautiful people”, sente-se um clima cultural, jurídico e intelectual pesado, como se a nação estivesse perto de precipitar-se em um golpe político.

É um sofisma estranho. Para os formadores tradicionais de opinião, a participação espontânea e gratuita do povo em manifestações públicas é um movimento de quebra institucional. Por outro lado, grupos agressivos de black blocs são descritos como democráticos.

Se essa narrativa fosse uma obra de ficção, seria tratada pela literatura como uma distopia. Como é pretensa descrição da realidade, parece que os formadores de opinião fizeram uma especialização em alguma faculdade da verdade de um algum país orwelliano. Pouco tempo atrás, eles reportavam pesquisa de algum órgão de um Ministério da Verdade, segundo a qual a classe política no Brasil não representava o povo. Agora, dizem que as manifestações que reforçam a representatividade do presidente são movimentos antidemocráticos.

Se fosse criar-se uma hipótese para tentar descobrir qual é o motivo para esse paradoxo intelectual dos bem-pensantes, poder-se-ia apresentar uma síntese que juntasse a psicologia com a economia: será que os bem-pensantes estão reagindo com um mecanismo mental de defesa contra a destruição criativa que atinge os seus negócios pelas redes sociais? Parece que eles não atinavam para o risco da tecnologia enquanto a maioria conservadora também era silenciosa. Parece que não acham legítimo surgir formador de opinião livre, que não tenha chancela de bem pensante das editorias conhecidas.

Talvez os profissionais descolados da comunicação não gostem quando movimentos populares surjam sem que eles tenham tido alguma influência. Quando se assiste aos profissionais da mídia chamar as manifestações verde e amarelas de antidemocráticas, é possível imaginar que eles estejam adotando casuisticamente a ética de que o inimigo do meu inimigo é meu amigo. Afinal, as manifestações não foram anunciadas pelos representantes culturais autorizados.

É uma dissonância cognitiva interessante. Como o Ministério da Verdade não gosta de um movimento popular pacífico e espontâneo, hoje ele chama os grupos de black blocs de democráticos. Chamam de democráticos aqueles que costumam levar destruição e violência. Grupos que têm uma folha corrida, onde consta ao menos um homicídio no qual a vítima foi um colega cinegrafista dos bem pensantes descolados.

É um Zeitgeist que parece ir influenciando uma parte da elite orgulhosa que talvez não consiga superar os traumas das eleições com a psicanálise.

Assistindo a tudo isso, o otimista conservador clama por prudência. Reza para que a história não se repita, embora enxergue verossimilhança entre momentos do passado e o esgarçamento social de agora. Ele teme a reconhecida genialidade analítica de Alexis de Tocqueville. Assustado, não quer imaginá-lo também um profeta. O conservador, por mais otimista que seja, sente uma maleita espiritual. Percebe o distanciamento emocional entre a nobreza intelectual, que se sente a nova classe das luzes, e o povo, que acha legítimas as políticas propostas pelo presidente.

Não é muito difícil fazer uma analogia entre o ambiente político e cultural de hoje e o existente na época do Antigo Regime.

Tocqueville diz que a “Revolução ocorrida na França foi menos que tudo um acontecimento fortuito. Pegou o mundo de surpresa, mas foi apenas um complemento de uma obra que se vinha se formando. Os homens já não estariam ligados uns aos outros. Eles estavam excessivamente propensos a só ocuparem-se com seus assuntos particulares. Qualquer virtude pública era sufocada”.

É interessante notar que, tanto naquela época como agora, quando a virtude pública da participação política ensaia brotar, as classes nobres da cultura parecem querer sufocá-la -seja por meio do susto moral de um inquérito ou por rotulações como “ajuntamentos antidemocráticos”.

Avancemos na análise sociológica de Tocqueville. Ele argumentava que o Antigo Regime influía de mil maneira na vida dos franceses. “Estava sempre auxiliando, impedindo, permitindo não apenas na condução geral dos assuntos públicos, mas também na vida privada de cada pessoa”. Ele defendia na sua obra que só mesmo a liberdade podia combater os vícios que são naturais em uma sociedade controlada. Isso porque só a “liberdade pode aquecê-los e reuni-los diariamente pela necessidade de entenderem-se em favor de uma atividade comum”.

Esse é o espírito que anima as pessoas de boa vontade a reunirem-se aos domingos para cantar o Hino Nacional e rezarem, pedindo que seja respeitada a separação dos poderes.

Um dos sinais do Antigo Regime captados por Tocqueville foi o excessivo controle e a influência que a centralização administrativa, a tutela administrativa e os escritores precipitavam sobre o povo, ao mesmo tempo em que se isolavam dele.

O que caracterizava a administração na França era o ódio que inspirava todos que queriam ocupar-se dos assuntos públicos sem ela. A menor associação livre, com qualquer objetivo, importunava a administração. Guardando as devidas proporções, é inegável ver semelhanças com que ocorre hoje na sociedade brasileira. Ela aprendeu por si a associar-se com as redes sociais; discute qualquer assunto sem pedir permissão de correção às elites administrativas e nem aos formadores de opinião das colunas jornalísticas.

Análogo a Tocqueville, percebe-se um isolamento de classes como no Antigo Regime. Lá, “os atores administrativos, quase todos burgueses, formavam uma nova classe, que tem seu espírito particular e seu orgulho próprio”. Tocqueville a chama de “a Aristocracia da Sociedade Nova, que já está composta, viva e aguarda apenas que a Revolução lhe desocupe o lugar”. Aqui, a Aristocracia Nova reclama da voz conservadora do povo, acusando-a de querer, talvez sem motivo, tira-la do lugar.

Tocqueville informa que no Antigo Regime a nobreza é tão orgulhosa quanto pobre. Apenas os plebeus pareciam herdar todos os bens que a nobreza perdia. Entretanto, aquela nobreza se transformava em uma casta, pelos privilégios e galanteios que reservara.

Para comprovar o espírito de casta, Tocqueville analisa o termo gentleman. Na Inglaterra, com o passar do tempo, o termo vai se aplicando a homens que estão mais abaixo na escala social. Na América, é usado para designar qualquer cidadão. Na França, diz ele, o termo gentilhomme sempre permaneceu estrito: “A partir da Revolução praticamente saiu de uso, mas nunca se alterou ou foi usado fora da casta superior”.

Quando se trazem essas sutilezas de tratamento para o Brasil atual, percebe-se o desconforto da Aristocracia da nossa Sociedade Nova com a ousadia vocabular dos plebeus e do presidente. A Nova Aristocracia sente na pele a dificuldade de misturar-se com o povo comum nos transportes. Ela acha ofensivo ouvir protestos com nomes vulgares referindo a si própria. Deve guardar rancor de Bolsonaro, por sentir a etiqueta do glamour lhe escapar da alma. Mais rápido que o tempo histórico da Inglaterra, o presidente expediu um decreto que suspende o uso do termo “Excelência” na Administração. Agora, do mais simples do povo ao ministro, todos são Senhor ou Senhora. Neste Novo Regime, em que a Nova Aristocracia deve achar inseguro, não vigora La Noblesse Oblige. Agora seria Le Peuple Oblige.

Falar objetivamente que o “o povo obriga” pode suscitar interpretações de que a atual administração governa pelo populismo. Entretanto, não se pode falar que o atual líder escora seu poder na troca de favores com as massas, ou que ele a manipula e a conduz. O que se mostra é que o atual líder se sente efetivamente como parte do povo. Mais amplo do que aquela parte manipulada em troca de benesses corporativas, o povo está mais próximo da antiga imagem de uma “maioria silenciosa”.

Ela existe; é uma maioria conservadora, que os institutos de pesquisa já identificaram estatisticamente. Uma maioria cuja preocupação principal é com a família segura. É uma maioria confiante no trabalho como meio para o progresso familiar.

Embora já tenha sido quantificada, essa é uma maioria desprezada pelos Bem Pensantes atuais, o que caracteriza um descolamento social. Esse tipo de descolamento social também foi visto por Tocqueville como um dos fatores da Revolução: era “o completo quadro com a burguesia separada do povo e (…) a nobreza separada da burguesia”.

Diz ainda o pensador francês: “É com grande dificuldade que os homens das classes superiores chegam a discernir nitidamente o que se passa na alma do povo. A educação abre-lhes sobre as causas humanas pontos de vistas que lhes são próprios e que permanecem fechados para todos os outros. Longe de aproximar-se dos camponeses, eles evitaram o contato com as suas misérias”.

Neste momento de pandemia, o descolamento e a falta de sintonia com aquela maioria são realmente gritantes. Enquanto o presidente toscamente falava em gripezinha e dizia que não se podia fechar tudo senão a economia pararia, os literatos do bem rebatiam, chamando-o de insensível com os mortos. Todavia, apareciam nas redes sociais, mostrando como estavam degustando a própria quarentena com uma garrafa de vinho.

Acham-se científicos do bem, mas não se utilizam da mínima razão concreta para perguntar às pessoas que precisam ganhar de dia o que comer à noite como estava a quarentena. A educação que lhes permitiu chegar nos canais de televisão e nos tribunais não foi capaz de lhes ensinar empatia, mas eles chamam Bolsonaro de insensível.

Tocqueville enxergava que “toda a educação política de um grande povo inteiramente feita por literatos, talvez tenha sido o [fator] que mais contribuiu para dar à Revolução Francesa seu gênio próprio e para fazer nascer dela o que ainda estamos vendo”. “Todo dia podia-se ouvi-los discorrer sobre a origem das sociedades e sobre suas formas primitivas, sobre os direitos primordiais dos cidadãos, sobre as relações naturais e artificiais dos homens sobre o erro ou a legitimidade dos costumes e das leis. Essa espécie de política abstrata e literária estava difundida em doses desiguais em todas as obras daquele tempo; do tratado de peso à canção”.

Ele vai além; diz que “na França o mundo político permaneceu como que dividido em duas províncias separadas e sem contato entre si. Na primeira administrava-se; na outra estabeleciam-se os princípios abstratos nos quais toda administração deveria fundamentar-se”. “Gradativamente, a imaginação da multidão desertou da primeira para recolher-se na segunda província. Desinteressaram-se do que era e puseram-se a pensar no que podia ser; por fim viveram pelo espírito naquela cidade ideal que os escritores haviam construído”.

A França foi a primeira a ter uma revolução feita por intelectuais Bem Pensantes, que tentaram aplicar na realidade o que eles pensavam vagamente por si próprios. Um tempo de ideias abstratas, que ninguém ousava criticar.

Como ele diz, “os escritores não forneceram apenas suas ideias ao povo que a fez; deram-lhe seu temperamento e seu humor”. A qualidade do humor abstrato e literário que os escritores franceses produziram resultou em centenas de milhares de mortos, concretamente produzidos pelo próprio povo, que eles insuflavam.

No Brasil de hoje, pode-se dizer que a pandemia acirrou os ânimos dos nossos bem pensantes escritores a estabelecerem imediatamente soluções para o problema. Um problema que não se têm ainda certeza de como começou, mas que os literatos já sabiam a solução: isolamento social.

Os nossos escritores ainda vão vencendo a saga, porque não se vê no horizonte o fim do surto, embora alguns deles já tenham noticiado o momento do pico. O que prevalece é a retórica científica que usam contra o falar simples e tosco do presidente. Interditam argumentações de pesquisadores que ousam contestar o index adotado por eles, porque seria dar razão ao próprio presidente.

É interessante notar a percepção de Tocqueville sobre a política, com a influência dos literatos: “A própria linguagem da política tomou então um pouco do que os autores falavam; encheu-se de expressões gerais, de termos abstratos, de palavras ambiciosas e de construções literárias. Esse estilo, auxiliado pelas paixões políticas que o empregavam, penetrou em todas as classes e desceu com singular facilidade até as mais baixas”.

Aqui também se vê uma construção literária que vai ganhando corpo na linguagem política: é o tema das Fake News. De tanto os literatos falarem que notícias falsas estavam sendo divulgadas pelas redes sociais, a política absorveu a ideia. Foi redigido um Projeto de Lei para reprimi-la, cujo título é bastante simbólico: Lei Brasileira de Liberdade…

Pela compreensão do Projeto, vislumbra-se que liberdade é divulgar aquilo que os seus preocupados guardiões dizem que é.

Já Tocqueville tem uma compreensão simples e profunda do que seja liberdade: “O que em todas as épocas apegou tão fortemente o coração de certos homens são os seus próprios atrativos; seu encanto próprio, independente de benefícios; é o prazer de poder falar, agir, respirar sob o governo unicamente de Deus e das leis. Quem procura na liberdade as coisas é feito para servir”.

Com liberdade de escrever, os literatos vêm há tempos dizendo que o presidente é autoritário, mesmo que nenhuma medida atentatória tenha sido tomada. Agora, eles apresentam pesquisas de popularidade do presidente indicando descenso no índice de satisfação. Usam as pesquisas para confirmar a sua argumentação. De fato, o que a pesquisa pode provar é a confirmação de uma profecia autorrealizável. Com todos os formadores de opinião o criticando, seria surpreendente se ele mantivesse os níveis de satisfação.

Entretanto, os literatos ainda se mostram inseguros com a teimosia da antiga silenciosa maioria, que vem reunindo-se nos domingos, para dar apoio às políticas do presidente, mesmo com a pandemia.

Essa reunião do povo só é possível porque essa maioria perdeu a timidez, ao deixar de dar valor aos comentários anódinos da Nova Aristocracia nos jornais tradicionais.

Os jornais são ainda fontes de informações fáticas confiáveis; entretanto, os nobres comentários jornalísticos empobreceram. Hoje um pequeno-burguês brasileiro pode fazer análise política e difundi-la pelas redes. Tocqueville chama à humildade: “a burguesia tinha tantas luzes quanto o nobre. Suas luzes provinham da mesma fonte”.

Embora os literatos acusem a concorrência das mídias sociais como fabricadora de Fake News, o fato é que qualquer veículo de notícias pode divulgar assuntos não verídicos. A história do jornalismo comprova.

A diferença funcional entre elas é o que produz o abalo. As redes sociais têm uma vantagem comparativa grande em relação às outras fontes de informação. Elas chegam mais rápido ao público e são mais acessíveis para aqueles que trabalham silenciosamente e que muitas vezes não dominam o vernáculo nobre.

Por fim, um comentário entristecido de Tocqueville com o que ele viu:

Muitos se espantam ao ver a estranha cegueira com que as classes altas do Antigo Regime contribuíram assim para sua própria ruína; mas onde iriam eles encontrar esclarecimento? As instituições livres não são menos necessárias aos principais cidadãos para informá-los sobre os seus riscos do que aos menores para assegurar seus direitos.