por Gabriel de Arruda Castro

A imprensa americana noticiou recentemente que o governo Trump prepara uma nova determinação para que os novos prédios federais sejam construídos em estilo clássico – o mesmo utilizado na Casa Branca e no prédio do Congresso americano, por exemplo. “A arquitetura federal deve voltar a inspirar respeito em vez de perplexidade ou repugância”, diz o esboço da resolução, divulgado pelo Chicago Sun Times

O documento determina que os novos prédios deem preferência por “estilos arquitetônicos que — com consideração especial pela arquitetura de estilo clásico — valorizem a beleza, respeitem a herança arquitetônica regional e inspirem admiração pelo público.” Os principais alvos são os estilos brutalista e desconstrutivista – que, em linhas gerais, produziram edifícios monstruosos, com escalas pouco humanas e desenhos agressivos. 

O governo também pretende formar um Comitê para o “Reembelezamento” da Arquitetura Federal, com prazo de funcionamento de um ano, com o objetivo de apresentar sugestões para as regras que hoje regem a construção de edifícios federais.

Coincidentemente, poucos dias antes dessa notícia, a Comissão criada pelo governo inglês para tornar a arquitetura melhor e mais bonita apresentou seu relatório final. Presidido por Sir Roger Scruton, o grupo havia sido criado no fim de 2018. 

Logo no início, o relatório apresenta seus fundamentos: “As pessoas não somente querem a beleza em seu redor. Elas são repelidas pela feiura, que é um custo social com que todos são forçados a arcar. A feiura implica a construção de prédios que não são adaptáveis, saudáveis e desagradáveis, e que violam o contexto no qual eles se localizam. Esses prédios destroem o senso de lugar, enfraquecem o espírito de comunidade e fazem com que não estejamos em casa em nosso mundo”.

O documento também traz recomendações para a construção de cidades mais harmônicas, inclusive do ponto de vista estético.

E no Brasil?

A arquitetura, mesmo a dos prédios públicos, parece não ser um assunto de interesse do poder público. Na maior parte do tempo, é como se esse assunto não existisse para os nossos governantes. Mas não deveria ser assim.

A aparência de uma cidade tem relação direta com o bem-estar dos moradores (vide o livro “A Arquitetura da Felicidade, de Alain de Botton”). Mas, muito além disso, a estética também tem efeitos sobre o uso dos espaços públicos, a qualidade de vida e até sobre a segurança pública, como demonstrou a célebre Teoria das Janelas Quebradas, desenvolvida por James Q. Wilson e George Kelling. A aparência de desordem atrai mais desordem, o que incentiva o crime, que afasta as famílias do espaço público, o que tende a atrair mais desordem e abandono, em um ciclo sem fim que é familiar a muitos moradores das grandes cidades brasileiras.

As causas desse problema são complexas, e a solução nem sempre é viável do ponto de vista financeiro – somente o custo de de enterrar a fiação elétrica em São Paulo, por exemplo, foi estimado em 100 bilhões de reais. Mas, ao menos no campo da arquitetura, a raiz do problema é fácil de se identificada: uma grave crise de identidade arquitetônica que já dura oito décadas. 

Com o crescimento acelerado das cidades brasileiras, no começo do século 20, era comum a construção de prédios que simplesmente copiavam estilos europeus. Como reação, duas correntes distintas acabaram se articulando: um, o da chamada arquitetura neocolonial, defendida por nomes como Ricardo Severo e José Marianno, defendia uma valorização dos elementos nacionais e um resgate de princípios usados desde a fundação do Brasil. Já o grupo dos modernistas, como Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, propunha um rompimento com o passado. Em vez de reunirem o que o país tem de melhor, optaram por um estilo árido, artificial, que além de tudo é pouco funcional e não inspira admiração dos brasileiros. Ironicamente, os prédios que sobrevivem na memória afetiva da população não são os que pretendem se lançar ao futuro, mas os que o respeitam o passado.

O modo neocolonial retomava conceitos originais da arquitetura luso-brasileira e remontava a nossas tradições, nosso clima, nossa natureza. Marianno fez de seu sítio no Rio de Janeiro, o Solar Monjope, um protótipo do neocolonialismo. A casa acabou demolida após sua morte, com o aval de Lúcio Costa, que à época presidia o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Alguns prédios construídos nesse período levam a marca do estilo neocolonial e sobrevivem até hoje. Compará-los a prédios modernistas é um exercício revelador.

Um exemplo. Na primeira foto, está a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, de 1939. Na segunda, a sede do Superior Tribunal de Justiça, inaugurado em 1995.

O estilo neocolonial não é o único a ser visto com desprezo: a arquitetura contemporânea ignora qualquer estética que remeta aos clássicos. 

Entretanto, é fácil notar quais edifícios sobreviverão ao teste do tempo e quais serão vistos como fruto de excentricidade. Aqui vão mais duas comparações.

Na primeira foto, a Faculdade de Direito do Recife, que pertence à Universidade Federal de Pernambuco. É uma obra inaugurada em 1912. Na segunda, a Faculdade de Direito da Universidade de Brasília. O prédio é de 1982.

Outa comparação pertinente é entre dois museus públicos: o Museu Paulista, no Ipiranga, foi inaugurado em 1922. O Museu Nacional, em Brasília, foi inaugurado em 2006 (o desenho original, de Oscar Niemeyer, foi feito ainda em 1957).

O debate vai além da estética e da funcionalidade. O fato é que os prédios em estilo clássico (na concepção mais genérica da palavra) comunicam algo, remontam a uma identidade nacional, enquanto as construções modernas provocam, na melhor das hipóteses, uma curiosidade passageira.

É hora de os gestores prestarem mais atenção à arquitetura e ao urbanismo nas nossas cidades. A arquitetura, como outros campos do conhecimento, se isolou em si mesma e passou e se isolou em um mundo à parte, alheio às preferências estéticas universais.

Isso não significa que o Brasil deva reproduir as diretrizes do governo americano ou seguir o relatório da comissão do Reino Unido. É preciso pensar uma arquitetura que leve em conta as condições brasileiras. Um bom ponto de partida seria a adoção de critérios simples quando da elaboração de um novo projeto arquitetônico. É preciso que se busque construir prédios que:

1) Inspirem admiração e respeito.

2) Remetam a uma identidade comum aos brasileiros.

3) Atendam às pessoas, não aos gostos e ambições pessoais de arquitetos. 

4) Valorizem o engajamento da comunidade, e não o isolamento.

5) Provoquem sentimentos positivos, em vez de atuarem como um convite à degradação urbana.

Não é pedir muito. Como disse Winston Churchill certa vez, “Primeiro, nós damos forma aos nossos prédios. Depois, eles dão forma à nossa vida”.