por Luiz Jardim

A mente humana é algo grandioso. Guarda alguns mistérios da alma, que intrigam muitos cientistas. Por que pensamos e agimos de uma determinada forma? Alguns apontam variáveis bem diversas. O cuidado da família, o tempo histórico e a educação acadêmica são alguns mais óbvios. Alguns mais intransigentes chegam a insinuar um determinismo social para justificar os comportamentos: dizem que as pessoas pensam de uma determinada maneira porque cresceram em um tipo específico de sociedade ou porque os pais lhes transferiram as próprias idiossincrasias.

Ocorre que as idiossincrasias interferem na maneira pela qual agimos no mundo. Uma típica ação racional, como medida pelo conceito de custo-benefício, não explica muito, porque trazemos manias e conceitos previamente assimilados e isso influencia os passos que tomamos.

Muitas explicações desenvolvidas não encontram amparo no simples senso comum: passamos muitos anos ouvindo dos humanistas que o criminoso não é o algoz. Ele é a vítima, porque a sociedade nunca lhe deu oportunidade. Eles rejeitam a lógica do risco do custo da prisão, como uma estratégia para convencer o possível delinquente a refrear sua propensão para o crime.

Esse tipo de humanista usa uma lógica peculiar. Ele primeiro elabora a solução abstrata e depois formata as estratégias para chegar nas premissas. É como uma reengenharia reversa, de ética duvidosa, porque não se preocupa se o objeto a ser refeito é ou não um ser humano.

Agora os tais humanistas sofreram um baque emocional. Foram surpreendidos por uma onda que se levantava e não conseguiram ver. Não enxergaram ou se recusaram a tal, porque faziam análises do processo eleitoral, em estúdio hermético com ar condicionado.

Talvez tiveram preguiça de sair da bolha intelectual e ver o mundo real. Não os sensibiliza compreender o que mais importava para aquelas pessoas que suam a camisa todos os dias para pagar os impostos. Talvez porque achassem que já conheciam o que era melhor para aquelas pessoas.

Tentam apresentar alguma causa ex post facto para minimizar o verdadeiro alheamento à realidade de que talvez ainda não se deram conta.

Em recente matéria jornalista, um articulista tentou apresentar um dado científico, explicando as diferenças de compreensão da realidade entre os conservadores e progressistas. Deixou nas entrelinhas do texto de que são obtusos os que elegeram Jair Bolsonaro.

Ele partiu de um estudo que foi publicado, segundo o próprio articulista, no site de notícias americano Vox, identificado como de esquerda. O tal estudo chega à conclusão de que as qualidades que os cidadãos consideram mais importante nas crianças, explicam porque eles votam ou não nos populistas de direita.

Destaca que os que prezam características tradicionais, como respeito aos mais velhos, obediência e boas maneira tendem a apoiar os políticos de direita. Já os que são a favor da independência, autoconfiança e curiosidade os rejeitam.

Quem se atenta à origem da publicação tem a impressão de estar diante de análise de um sistema político hipotético, sem paralelo com a realidade. Entretanto, os Estados Unidos têm uma tradição secular de eleições periódicas, formada por valores sociais, os quais não mudam facilmente. Como o engessamento do diagnóstico pode explicar a alternância tradicional entre os partidos republicano e democrata? Será que aqueles valores apresentados seriam contraditórios? Não seria possível alguém respeitar os mais velhos e demonstrar autoconfiança? Será que aquele que entende a necessidade de ordem não valoriza a própria independência?

É provável que o estudo citado seja mais bem fundamentado, mas o destaque dado àquela parte, com tanta convicção pelo articulista, parece buscar uma desculpa sofisticada para a falha de avaliação do momento político atual. Seria uma transferência de culpa dos analistas. Afinal, eles sempre se movem pela independência, pela autoconfiança e pela liberdade e não seria percebível a sociedade ter um pensamento diverso da própria bolha mental.

Lendo essa cuidadosa transferência de responsabilidade de análise política para um determinismo educacional explicado pelo jornal, lembrei de outra obra: A Mente EsquerdistaAs Causas Psicológicas da Loucura Política, recém-publicada no Brasil, do psiquiatra americano Lylle Rossiter. É um livro que, a partir de princípios da psicologia, procura explicar porque um esquerdista pensa o que pensa.

Similar ao articulista atribui os valores à criação paterna, o autor de A Mente Esquerdista diz:

“O laço mãe-criança é o cadinho no qual os fundamentos da psique são formados(…) o bebê recém-nascido não possui vontade nem habilidade para escolher no sentido ordinário desse termo. (…) A partir desse início modesto, a missão adequada dos pais é guiá-lo até a competência adulta.

(…) Assim a cuidadora mais importante do mundo do bebê é sua mãe. É tarefa dela provê-lo com os fundamentos mentais e emocionais sobre os quais ele se tornará um adulto autônomo, economicamente produtivo, autoconfiante e socialmente cooperativo, que joga de acordo com as regras e respeita os direitos dos outros.

Em contraponto a essas virtudes, quando esse cuidado não eficiente (…) o resultado fracassado do outro extremo é um adulto infantilizado, econômica e socialmente dependente, que alega ser vítima, culpa os outros pelos seus fracassos, busca substitutos parentais e sente-se no direito de tomar bens e serviços dos outros forçosamente (…)”

O interessante na comparação entre o artigo que o articulista trouxe ao jornal de grande circulação e a obra A Mente Esquerdista é a quase total convergência da importância dos pais para a formação de filhos competentes psicologicamente.

Captam-se também divergências importantes.

Se voltarmos aos parâmetros apresentados pelo articulista do jornal, em quais das características se enquadrariam aqueles que votariam em populistas de direita? Provavelmente no primeiro rol, porque eles gostariam de obedecer às regras e não tomar a propriedade dos outros. Entretanto, também nessa lista se incluiriam os que votariam nos esquerdistas, liberais no sentido americano, porque seriam adultos mais independentes e autoconfiantes.

O psiquiatra americano destaca que “essas funções maternas críticas são ausentes ou seriamente comprometidas quando a criança é vítima de negligência, privação ou abuso de qualquer fonte”.

Quando se analisa as características daquelas pessoas que tiveram um resultado fracassado na educação que receberam dos pais, segundo Lylle Rossiter, eles seriam mais parecidos com Guilherme Boulos ou com Jair Bolsonaro?

Os analistas que buscam com sinceridade uma explicação para o fenômeno eleitoral de Jair Bolsonaro poderiam procurar entender como o povo se enxerga.

Se tivessem dado alguma importância a uma pesquisa que o DataFolha fez há uns anos, não ficariam tão surpreendidos com o resultado eleitoral, mesmo quando o próprio instituto dizia que Jair Bolsonaro perderia de todos os candidatos no segundo turno. As perguntas, não relacionadas diretamente com a política, foram apontadas pelo DataFolha, como um sinal de que mais de 60% da população brasileira seria conservadora.

Infelizmente, eles se recusaram a cruzar a bolha ideológica do Baixo Leblon e da Vila Madalena, e deixaram de observar como pensam aqueles pagadores de impostos com casas simples, mas já sem cadeiras nas calçadas das ruas pouco seguras do Brasil.

A mente formatada pela ideologia progressista somente permitiu aos formadores de opinião julgar quão civilizado ou tosco seria a pessoa, a partir da importância que ela dava para a lacração que eles mesmo acham bacana.

A mente formatada ainda está até hoje angustiada, sem entender o que aconteceu com o Brasil, que eles não viram. Um país que elegeu uma pessoa muito parecida com todos. Que não tem retórica politicamente correta e que valoriza verdadeiramente hábitos simples, semelhantes ao nosso homem cordial.