por Luiz Jardim

Os movimentos iniciais do novo governo vão confirmando a avaliação de que a governança do Brasil mudou o formalismo político. A maneira de a política apresentar resultados, desde 1988, indica que sucumbiu a esta nova força social, que motivou a eleição de Jair Bolsonaro para a presidência da República.

Muitos analistas apontam que a desmotivação com a política institucional é uma consequência das manifestações de 2013. Naquele ano, uma parte do povo saiu e bloqueou as ruas com pautas vagas, cuja essência demonstrava mais um mal-estar com a administração do governo do que um exigir de mudanças políticas.

Acredito que a causa de 2013 está mais na forma que no conteúdo da mudança exigida. O ano de 2013 reinaugurou as grandes manifestações populares, com a imprensa sugerindo que bastava convocar pessoas para que suas vontades fossem atendidas. Sobre o conteúdo daquelas manifestações ninguém soube dizer se apenas os 20 centavos eram motivo para tanto. Entretanto, os protestos parecem ter fermentado a impaciência da população.

Ligar 2013 com o que viria nos cinco anos seguintes ficaria incompleto se não trouxéssemos para a equação algo como as redes sociais. Foram as redes sociais que conectaram aquelas pessoas e os black blocs a parar e quebrar tudo nas ruas de São Paulo.

Foi a partir da tecnologia que outros grupos começaram a expressar a indignação.Surgiram com grande velocidade grupos conservadores, que se manifestavam contra a agenda da esquerda imbricada em cada espaço social da sociedade. Museus,escolas, televisão, tudo trazia uma pauta tão imprudente que precisou apenas de uma voz solitária, contra “isso daí”, para sair na frente da eleição.

É certo que uma pesquisa do Datafolha dizia que a maioria da população confiava que acreditar em Deus era uma questão de bons modos. Essa pesquisa deixava subliminar que a população estava preparada para ouvir o que se começou a dizer pelas redes sociais.

As redes sociais passaram a fazer ligação direta com a sociedade. Talvez tenham tornado a democracia e a pluralidade mais pura. O presidente Fernando Henrique compreendeu e diz que o tempo atual rompeu com as classes, porque a mobilidade aumentou,formando uma sociedade em rede. Surgia uma nova sociedade formada por quem está conectado.

Juntando a concepção tradicional da sociedade com a rapidez informacional das redes sociais, as redações ideologizadas da imprensa tradicional perderam o bonde e a arrecadação.

Foi nesse ambiente de comunicação rápida da internet que Jair Bolsonaro se consolidou. Mesmo em um partido pequeno, sem dinheiro para grandes marqueteiros, o que restou ao candidato eleito foi mostrar a sua virtude de humildade e sinceridade diretamente ao povo.

Para uma população enxovalhada pelos escândalos e pelo ineficiente serviço público prestado aos pagadores de impostos, Bolsonaro surgir como uma voz a liderar pelas redes sociais a multidão de desesperançados.

Bolsonaro, nesse sentido, representa uma mudança de ciclo; uma reinauguração de outra República brasileira. Uma República que fala direto com o povo sem preocupar-se com intermediários institucionais para modular as vontades.

Um novo ciclo que Fernando Henrique aponta pelo encerramento institucional de 1988. Um período no qual os partidos eram o colchão de amortecimento. A velocidade das informações modificou a intensidade da intermediação institucional.Agora, são as instituições que correm para captarem os ânimos da população para preservarem a legitimidade.

Jair Bolsonaro entendeu isso bem antes de todos. Enquanto os formadores de opinião lhe imputavam o epíteto de machista, homofóbico, misógino, Bolsonaro conquistava os corações e mentes com os “memes” de Bolsonaro Zoeiro e Bolsomito. Ao mesmo tempo, era recebido por multidões nos aeroportos por onde chegava, para em seguida discursar sobre temas do conservadorismo da tradição brasileira e sobre como iria governar com o auxílio de pessoas competentes e honestas.

Até o momento, é o que ele vem entregando com a escolha dos ministros. Ministros cujo perfil se adequam com o espírito conservador que resolveu ignorar apatrulha do politicamente correto. Conservadorismo que foi bem traduzido por aquele que a imprensa sem duplo sentido chamou de “guru improvável” – Olavo de Carvalho.

Era improvável, senão impossível, que Olavo de Carvalho pudesse sair do ostracismo midiático em que foi levado. No final dos anos 90, Olavo de Carvalho foi talvez o primeiro a falar abertamente a palavra conservador. A semântica usada por ele era exatamente o contrário do que se difundia por conservador. Se os círculos culturais associavam conservadorismo à ignorância e ao autoritarismo, ele ensinava que o conservador era quem duvidava da eficiência do progressismo cultural destes mesmo círculos.

Daquela época até hoje, a cultura foi cada vez mais esticando a corda para a esquerda,até que os alunos de Olavo de Carvalho foram para as redes. O progressismo caiu como um castelo de cartas, com a eleição de Jair Bolsonaro.

Bolsonaro compreendeu a força do tradicionalismo e o aproveitou. Comentava do seu jeito as lições que Olavo de Carvalho transmitia nos seus cursos na internet. Cursos que influenciaram os próprios filhos políticos do próximo presidente do Brasil. Um é leitor dos livros de Olavo, outro, aluno do curso online.

A admiração se materializava. Por indicação do Deputado Estadual Flávio Bolsonaro, Olavo de Carvalho recebeu a Medalha Tiradentes, comenda concedida pelo Estado do Rio. O próprio Deputado viajou aos Estados Unidos para entregar-lhe a medalha.

O resultado disso é que Jair Bolsonaro pode ser considerado o espírito do oceano de consciências que estava represado pelo congelamento das ideias por causa do politicamente correto. Olavo de Carvalho, com toda a justiça, foi o navio quebra-gelo que rompeu o bloqueio, permitindo que a população enxergasse em Bolsonaro o legítimo representante das ideias comuns do povo ignoradas pelas gentes falantes do mundo cultural.

A nova era que Bolsonaro aparenta inaugurar neste novo período de alternância de poder, poderá ser uma época em que os valores que formam o caráter dos brasileiros tenham peso nas decisões políticas.

Ele já cumpriu a promessa de que trabalharia com militares, porque pertencem a instituição de maior legitimidade. Ele já cumpriu a palavra de que não escolheria ministros, a partir de indicações de partidos, mas pela competência. Ele fala que reformas duras precisarão ser feitas. Ele já disse que não entende dos meandros da economia, mas que teria alguém liberal e de confiança para dirigir a política econômica brasileira.

Como a Lava-Jato tentou, a política brasileira entrou em uma nova era. Que ela seja próspera e segura.