por Luiz Jardim

 

 A teoria dos ciclos econômicos parece guardar alguma analogia com a política no Brasil. De períodos em períodos, o país é sacudido com um chacoalhar das estruturas políticas, tal qual ocorre com a economia.

Não é que ocorra periodicamente uma tomada brusca de poder. O fato é que o Brasil não é facilmente compreendido pelos especialistas com a ousadia de adivinhar o futuro.

Especialistas que surgiram nos últimos anos a trazer a boa nova para os matutos da civilização. Por se pensarem educados e superiores, acreditavam que todos deviam embarcar na onda contraditória do politicamente correto, porque, afinal, eles já tinham definido essa novidade nos cânones da modernidade.

Apenas esqueceram-se de combinar com os presumíveis interessados, contrariando o melhor exemplo da prudência conservadora. Os agrestes não apenas ignoraram os apelos modernos como passaram a admitir o contrário na vida pública brasileira.

A reação popular à ideologia revolucionária contra a cultura tradicional faz lembrar o conclamo de um antigo presidente americano. Nixon conclamou à maioria silenciosa, para que se levantasse e enfrentasse a minoria barulhenta que tinha a pretensão de destruir os valores mais arraigados da nação americana.

A população, que parecia tolerante com a afronta a seu modo de vida, finalmente se ergueu e mostrou que estava atenta ao que ocorria.

O povo pacífico compreendeu que valia a pena lutar pelos valores formados. Os progressistas sentiram que a prudência é a barreira não ultrapassada nas sociedades abertas. Esse é um exemplo de que o avanço de ideologias políticas, tanto na velocidade, quanto na intensidade, sempre encontra um obstáculo, quando a prudência e o senso comum de justiça estão vigorosos na nação.

A última eleição nos Estados Unidos também mostrou que há um limite moral para a ideologia. Lá, a eleição improvável de Donald Trump, ridicularizado pela mídia engajada, fez retrair os bem-pensantes para as trincheiras das fake News. O engajamento cego dos revolucionários das ideias não os permitiram ver que havia uma grande parcela da população deixada para trás. População essa que se levantou e apoiou Donald Trump, justamente porque ele falava diretamente para a alma rude deles.

Fenômeno semelhante vem ocorrendo com o Brasil. Os formadores de opinião culpam a escravatura, encerrada há quase 150 anos, como a grande responsável pela desigualdade social brasileira. Criam políticas de compensação social, mas não se preocupam com pessoas da tal maioria silenciosa que também não conseguem ascender socialmente.

A maioria silenciosa, que aguentou durante muito tempo ser chamada de racista, aparenta querer ver os mensageiros da tal boa nova da civilização pelas costas. Não mais estão dispostos a aturarem acusações de serem culpados pelo insistente fracasso brasileiro, enquanto os acusadores ficam nas mesas de bar discutindo sem fundamento o avanço da agenda deles.

Essa população que sofre sem proteção com a violência diária resolveu dizer: BASTA.

As pessoas comuns, jecas no sentido mais desprezível dos bacanas, sentiam que ficavam para trás, porque os cânones dos bem-falantes não consideravam o ser humano dentro de uma ética comum. Sentiam a frustação de serem acusados o tempo todo de preconceituosos, apenas por serem vulgarmente comuns.

Os bem-pensantes veem minorias em todas as partes. Adoram por isso ser reconhecidos como o Batman na luta pelo bem da cidade ideologizada.

Como não há quem segure uma ideia cujo tempo chegou, a maioria silenciosa está prestes a mostrar que ela existe e que é, de fato, maioria. Uma maioria de humanos de várias cores de peles, de vários poderes aquisitivos, mas com a pretensão de levar uma vida mais leve, segura e sem agressões politicamente corretas.

Estamos próximos a ouvir a voz do pensamento médio brasileiro. Um brasileiro que quer apenas ter a mesma chance de competir com igualdade, tal qual os jogadores dos times de futebol, que somente alcançam a glória pelo esforço e talento.

São esses brasileiros que mostraram a sua vontade. Uma vontade de apenas ser visto como um qualquer; nem mais, nem menos que outros. Um brasileiro que apostou em terminar nessa eleição a prevalência da estética sobre a ética. Suplantar a malícia da aparência de vítima, que toma o lugar de quem ainda acredita no suor do rosto para vencer.

Uma malícia introduzida que cria um relativismo moral e produz uma regulação invasiva na vida das pessoas, que transforma a vida social em uma sociedade irracional de adultos infantilizados. Enfraquece ainda os fundamentos da liberdade, da ordem e da cooperação.

A consequência é a conversão da sociedade em um amontoado de seres dependentes dos cuidados do governo. Claro que nem todos teriam direito a essa política do bem-estar dependente.

A maioria percebeu que não será ela a receber essas benesses estatais.

A maioria cansou de ser o bode expiatório do atraso do Brasil. A maioria quer ser tratada apenas com cidadania idêntica para todos. A maioria quer manter o caráter essencial para a liberdade individual, a segurança material, a cooperação voluntária e a ordem social.

Veremos!