por Luiz Jardim


Algo aconteceu no Brasil neste ano de Nosso Senhor de 2018. Algo que vem assustando a elite intelectual, porque algo saiu do controle e ela perdeu o poder de definir a pauta.

Pesquisas de poucos anos atrás já apontavam que uma tradição permanecia pulsando no interior dos lares simples com cadeiras nas calçadas. Uma tradição que se fundamenta naquilo que é mais importante para uma sociedade saudável: a importância dos valores formados na família.

Pois agora esses valores saíram da mesa de jantar e ocuparam, sem a menor indicação de retrocesso, os espaços livres das mídias sociais.

Por que isso aconteceu? É importante antes dar destaque às externalidades não programadas daquilo que se inventa. Por exemplo, quando foi inventado o avião, não se pensou que aquilo seria usado em guerras. Depois do avião, as guerras mudaram e ficaram cirúrgicas. Quem imaginaria?

Se as mídias sociais foram pensadas para conectar amigos, quem poderia imaginar que elas fariam surgir comentadores privados, com mais poder de convencimento que jornalistas formadores de opinião dos jornais?

Os meios tradicionais de comunicação social já acusaram o golpe. Vários veículos pelo mundo apresentaram problemas de solvência nos negócios. Como reação para não perderem mais, passaram a alertar sobre o perigo das notícias falsas, que circulam pelos grupos de comunicação das redes sociais, com muita velocidade.

Com aparente preocupação de alertar o público sobre a mentira, os jornais tomaram a expressão fake news de Trump, que acusava a imprensa tradicional de fazer proselitismo ideológico no lugar de difundir fatos noticiosos.

De maneira sutil, a imprensa dá a entender que tudo fora dela deve ser visto com cuidado. Deve-se ter cuidado mesmo. Talvez, por outro lado, seja o medo de que a bolha ideológica hegemônica esteja próxima de estourar.

Imaginando que grande parte dos formadores de opinião dos jornais compartilham de valores contrários àqueles conversados em família na mesa de jantar, as mídias sociais provocaram um retrocesso no discurso progressista da imprensa.

Nos jantares, o jornal das oito já não tem tanto ibope. Nesse momento, as famílias discutem o que leram dos amigos nas mensagens do grupo ou o que foi visto na postagem dos computadores.

Os formadores de opinião dos jornais sentiram o golpe. Ressurgiu o discurso conservador que desprezam. Discurso que chegou forte nesta época eleitoral.

Apressados em preservar algo da sua visão de mundo, os habitantes da bolha ideológica parecem que não sentem a eficiência das medidas de alerta até agora tomadas. Parecem ter aprofundando a defesa da própria cidadela ideológica, convencendo os administradores dos aplicativos a bloquearem a circulação de páginas e de postagem de institutos e de indivíduos, que conseguem de maneira livre alcançar muitas pessoas nas redes.

Isso não é um problema apenas brasileiro. O medo que os antigos formadores de opinião vêm sentido não é do cenário eleitoral. O medo deles não parece ser conjuntural, parece ser estratégico. Eles sentem uma destruição criativa do negócio com que lidam: a comunicação.

Para reverter esse processo natural do sistema capitalista partem de uma avaliação errada. Não é a perda de influência dos jornais escrito e televisivo para os meios eletrônicos. Eles perdem audiência porque a maré virou. A narrativa progressista difundida por eles ficou decadente, porque as redes sociais fizeram o ressurgimento do pensamento conservador.

A cada instante, os comentadores privados transmitem pontos de vistas, que fazem sentido para a população de que os valores que elas cultivam, mesmo sem muita consciência, lhes dão segurança. Eles falam a realidade de todas as contradições que os formadores de opinião procuram esconder.

A imprensa na bolha ideológica diz que bandidos são as vítimas da sociedade. Entretanto, o mais simples senso comum de quem acorda cedo para o trabalho tem certeza de que ele sim é a vítima dessa desculpa progressista da editoria dos jornais.

O senso comum informa às famílias que a propaganda da televisão de que não existe diferença entre os sexos é somente uma ideologia, que não encontra eco naqueles que pensam que Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança.

O problema dos veículos tradicionais de comunicação não é a concorrência com a rapidez da tecnologia das redes sociais. O problema é que eles continuam acreditando que ainda são os formadores dos costumes e das ideias das pessoas. Não são mais.

Hoje, o comunicador das redes sociais é aquela pessoa que se orienta pelo senso comum das tradições que se formaram a partir dos embates históricos dos tempos. O senso comum que vem da tradição oral das famílias na mesa de jantar, que ainda guarda o senso de célula social.

Graças sim às redes sociais, aquele sentimento e aqueles conhecimentos que o pai e a mãe não sabem como os receberam voltam à realidade deles e lhes dão mais segurança sobre o que pensar.

É uma mudança social que vem fazendo sucesso e tudo indica que poderá levar várias empresas de comunicação a recuperações financeiras judiciais se elas não saírem da bolha e olharem para o cidadão comum como o senhor do próprio destino e cliente apenas das mercadorias que os jornais vendem: as notícias, não a ideologia.