por Luiz Jardim

A retórica política repetida muitas vezes acaba por firmar-se como verdade. Ainda que a origem dessa máxima política seja uma ironia, isso realmente acontece, quando a estória repetida guardar verossimilhança com a realidade. Quem desconfiará da estória de que a política educacional recebe o bastante em dinheiro, quando é noticiado que, nas escolas, faltam merendas e sequer existem mesas para os alunos?

Quando se deixa a retórica e se vai à investigação, se descobre que o Estado brasileiro reserva do orçamento para financiar a educação uma proporção maior que a programada por países mais desenvolvidos que o nosso. Segundo um relatório da OCDE, Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, o Brasil gasta mais de 16% dos recursos públicos em educação, contra a média de 10% dos países da OCDE.

Isso não é prova de que o gasto com aluno é maior. Na realidade é menor, devido à  arquitetura da política educacional existente no Brasil.

Aqui, o gasto no ensino fundamental é de 3,8 mil dólares, enquanto no Chile gasta-se 4,3 mil dólares por aluno, por ano. Entretanto, o ensino superior aqui consome mais de 11 mil dólares por aluno, enquanto no Chile é de 6,9 mil dólares e a Coreia gasta 9,5 mil dólares com os alunos, por ano, nas universidades. Não é muito difícil entender porque é tão difícil para as famílias pobres conseguirem levar os filhos até as universidades públicas, que todos querem.

Resultado prático dessa inversão de prioridade na educação brasileira é que apenas 50% dos estudantes brasileiros concluem o ensino médio no tempo previsto. Nos países da OCDE, mais de 75% dos alunos terminam no tempo programando.

Investimos pouco no básico, estágio do crescimento em que as crianças e os jovens conseguem formar a capacidade de raciocínio, e depois ficamos surpreendidos, quando testes internacionais de conhecimento posicionam o Brasil nos últimos lugares.

Muitos críticos afirmam que o teste PISA não é fidedigno, porque os governos pinçam os melhores estudantes para fazê-lo. Isso significaria uma fraude legal no ranking dos países, porque não dimensionaria a qualidade média dos estudantes, mas apenas a dos melhores. Ainda que se tenham dúvidas do teste internacional, a qualidade sofrível do ensino também é comprovada pelo próprio Ministério da Educação. O último resultado divulgado pelo MEC traz desesperança para o nosso futuro.

Os resultados da Prova Brasil, exame de aferição da qualidade da educação, são desoladores  nos testes de matemática e português. Os dados da prova foram sintetizados, a partir do resultado da avaliação a que foram submetidos 5,4 milhões de estudantes de escolas públicas e privadas do 5º e do 9º ano do ensino fundamental e a alunos do 3ºano do ensino médio.

A prova mostra que os estudantes progridem de série, mas não avançam na senda do conhecimento. Constatou-se que no 3º ano do ensino médio, apenas 5% dos alunos alcançaram graus entre 7 e 9, índice que o Sistema de Avaliação da Educação Básica considera como adequado. A maioria de 95% dos estudantes ficou entre o nível básico, de 4 a 6; e o insuficiente, com graus de 0 a 3. Quando alunos estão no nível insuficiente, eles só conseguem avançar com o auxílio particular de um professor indicado.

A qualidade do ensino permanece a mesma desde 2009, mas a média em matemática na última prova ficou menor que a de 8 anos atrás.

Se as pessoas imaginarem que isso não chocaria por tratar de matemática, é preciso exclamar que em Português a situação da nossa educação consegue ser pior. Apenas 1,7% dos alunos do 3º ano alcançaram a faixa adequada, com graus de 7 a 9 em Português.

No ensino fundamental, a prova para crianças de 8 anos trazia uma questão que mostrava a fotografia de um pacote de pipoca e pedia para que marcassem a alternativa que indicaria o que seria aquela figura. Um em cada cinco alunos marcava piloto, pijama ou pirata. Como um pacote de pipoca é facilmente reconhecido por crianças de oito anos, o que o teste apontou é que 20% dos alunos de oito anos não reconhecem os sinais gráficos que formam a palavra pipoca. Significa que 20% dos alunos com oito anos não conseguem ler com segurança.

É mais que sabido que conhecimento é uma habilidade que se forma cumulativamente, alcançando maior complexidade, a partir do que já foi assimilado antes. Esses problemas percebidos na infância claramente vão repercutir nos níveis mais avançados, como os 95% de alunos no final do ensino médio demonstram.

O retrato da qualidade da educação brasileira não é um acidente no percurso do progresso. O quadro atual é apenas uma tela de um filme com mais de 20 anos. Um período em que os governos diziam que a política de educação era para formar cidadãos. Como se forma cidadãos, se os alunos não sabem ler os mais básicos direitos para exigir do governo as políticas corretas? Que julgamento eles podem ter das políticas se eles não conseguem entender o que elas significam?

O que esse teste demonstra da qualidade da nossa política educacional é que os dados empíricos destroem uma retórica mentirosa, mesmo que ela seja repetida mil vezes.

A mesma retórica de todos os governos que se diziam estar focados no aspecto social. Ocorre que de maneira elitista, os últimos governos focaram em Instituição de Ensino Superior. Usaram o dinheiro do pobre contribuinte no curso superior, cujos filhos não terão condições de chegar lá, e largaram de mão a qualidade do ensino básico, que é sofrível e carregado de ideologia.

Se a menos a política educacional para o ensino superior também fosse eficiente haveria alguma justificativa. A qualidade é similar ao ensino básico. O índice internacional, realizado pela Times Higher Education de 2018, não inclui qualquer universidade brasileira, pública ou privada, entre as 200 melhores.

O destaque pelo mau desempenho dos estudantes brasileiros no ensino básico, frente ao investimento per capita do contribuinte no ensino superior, fez com que esse resultado coincidisse com o momento do incêndio no Museu Nacional, gerido por uma das mais antigas universidades do Brasil. O que assistimos, pelas televisões no domingo à noite, nos leva a pensar que os administradores públicos se orientam por ocupação de espaços para qualquer coisa, menos a eficiência administrativa e da missão.

A UFRJ se apressou em culpar o governo pela falta de verbas. Mesmo tendo um orçamento de mais de 2,5 bilhões de reais, a gestão ideológica não teve a capacidade de executar uma reforma naquele patrimônio cultural brasileiro. A negligência com a gestão da coisa pública causa um prejuízo irreparável na memória da nossa nação. Perdemos muito e para sempre.

O resultado do teste da Prova Brasil indica uma trajetória preocupante com o futuro da inteligência brasileira e com um progresso sustentável. O incêndio do museu, por causa da incompetência de gestão, aponta porquê não temos futuro. Deixemos todas esperanças, nós que aqui vivemos.