Como virá a mudança?

por Lucas G. Freire

publicado originalmente pelo Centro  Mackenzie de Liberdade Econômica

Existem dois aspectos da luta por um Brasil mais livre, justo e próspero que demandam mais atenção do que têm recebido.

(1)  A direção da mudança deve ser de baixo para cima

(2)  A mudança será precedida por uma batalha de ideias

Um dos temas mais conhecidos sobre a obra social e econômica de F. A. Hayek é o da dispersão do conhecimento. O conhecimento, diz Hayek (1945, pp. 519—20), é disperso e incompleto. Não adianta termos um sistema hipercentralizado como o atual, e pensar somente em como seria bom ter as pessoas certas no topo.

Primeiro, a experiência recente do nosso país mostra que a pessoa no topo não é necessariamente bem-intencionada. Segundo, num sistema hipercentralizado como o nosso, existe menos controle sobre essa pessoa para que ela busque a liberdade, justiça e prosperidade – o bem comum da nação. Terceiro, e este é o argumento que podemos fazer aqui a partir de Hayek, essa pessoa ou esse grupo de pessoas, mesmo se fossem um grupo de gente caridosa e benevolente que só desejasse o melhor para nós, não seria capaz de tomar as melhores decisões por causa da ignorância. Um burocrata do MEC em Brasília ou um deputado federal não sabe como eu desejo que a minha família deva ser educada. Também não sabe qual é a real demanda por alimentos na vila ao lado da minha. O conhecimento do que é o problema, de quais soluções estão disponíveis, a quais preços, se for o caso, é um conhecimento no nível local e é um conhecimento disperso pela sociedade. O mercado e outras formas de organização voluntária da cooperação entre vários indivíduos são ferramentas mais eficazes que o planejamento central, justamente por causa desse problema do conhecimento (Hayek, 1945, p. 528).

Por isso mesmo, parece-me mais produtivo apostar que a mudança que deve ocorrer aconteça de baixo para cima. Ao invés de pensarmos em manter o sistema tirânico atual e colocar um líder benevolente no topo, precisamos pensar mais no conhecimento que temos sobre os problemas e soluções locais. Precisamos pensar sobre organizar e associar pessoas aqui e agora, agregar um pouco do conhecimento disperso para que seja possível resolver problemas sem passar por Brasília. Precisamos pensar mais em ações que não são necessariamente ações de governo – nem mesmo de mercado, se for o caso – mas que podem ser efetuadas com melhores resultados se forem feitas aqui e agora. Pressupor que a mudança virá de baixo para cima é entender que você e eu temos muito mais peso do que imaginamos nesse processo. Estritamente falando, como lembra Anthony Downs (1957, pp. 260—76), o seu voto e o meu provavelmente não fazem a diferença. Nem é votar para colocar a pessoa certa no topo e depois cruzar os braços que vai produzir um Brasil mais livre, justo e próspero. É, pelo contrário, a ação local, em cooperação com as outras pessoas, seja no mercado, seja em organizações voluntárias de ajuda mútua, que vai ajudar a mostrar como não precisamos invocar a solução do Estado Todo-Poderoso e Provedor e Mantenedor de todas as coisas sobre a face da Terra.

Entender que a mudança começa no nível local e vai subindo acaba mudando completamente a agenda de prioridades. Se chegarmos a pensar no voto, pensaremos em quem vamos votar para vereador ou prefeito. Passaremos a pensar, agora, no bairro ou na vizinhança. No que pode ser feito sobre a coleta de lixo. Em soluções criativas para tampar o buraco na rua que o município não tampa. Em como tornar o quarteirão onde moramos mais bonito. Em como organizar uma coleta de dinheiro para tirar uma pessoa pobre de uma situação de emergência. E, por que não, pensar em programas de ajuda mútua, seja por financiamento de microcrédito ou por empreendimento social, ou mesmo por caridade? Podemos assim usar o conhecimento local e agregando o disperso pela associação voluntária de pessoas para resolver problemas que experimentamos de forma mais concreta no nível local.

Além desse primeiro ponto de que a direção da mudança será de baixo para cima, podemos falar, também de um segundo ponto, também ligado ao conhecimento, mas que opera duma outra forma. Trata-se da batalha de ideias. A mudança que desejamos para o Brasil será precedida duma batalha de ideias. Isso quer dizer que precisamos duma mudança cultural.

Já temos visto manifestações dessa batalha ao longo da nossa história. Aliás, ela nunca deixou de ocorrer. Olavo de Carvalho costuma dizer que pouca gente tem opinião original e que, no final das contas, o que importa é que a opinião seja verdadeira. Não é de agora que temos uma certa polarização nos pressupostos que carregamos sobre como a sociedade deve ser organizada ou como a economia deve funcionar. Porém, de um lado ou de outro, essas opiniões têm uma raiz mais profunda em tradições de pensamento – elas não são originais.

Hayek, ao observar a predominância das opiniões que celebram o estatismo como a panaceia que cura todos os problemas sociais, enxerga muito bem que os políticos numa democracia falam sobre as ideias que aparentam ter mais popularidade com o eleitorado. O que torna certos esquemas mais populares é o tipo de acesso que essas ideias têm ao público geral. Para Hayek (1960, p. 379), os socialistas articularam melhor uma forma de transformar suas ideias na opinião pública – melhor do que os liberais ou conservadores. É que os socialistas têm uma compreensão melhor do papel que os intelectuais exercem sobre a política.

Hayek tem uma visão muito crítica dos intelectuais. Ele os chama de “comerciantes profissionais de ideias de segunda-mão” (1960, p. 371). Os intelectuais não são pessoas com pensamento original ou com ideias inovadoras de conteúdo. Sua inovação vem na forma, na linguagem, no meio de comunicar. Eles veiculam bem as ideias que emprestam de outra fonte. São jornalistas, artistas, publicitários, escritores, cartunistas, e assim por diante. São excelentes comunicadores, mas não são acadêmicos. Hayek acha incrível, por exemplo, que os economistas favoráveis à loucura do socialismo tenham sido sempre uma minoria, mas que essa ideia, no entanto, tenha ganhado tração política em vários cantos do mundo. Para ele, a chave da estratégia estatista foi conquistar a classe intelectual primeiro. Por sua vez, essa classe conquistou a opinião pública. Ela serviu de cadeia de transmissão de ideias da Torre de Marfim para a rua. Os intelectuais têm acesso privilegiado aos meios de comunicação e exercem um poder de filtro de quais ideias acadêmicas chegarão ao público geral e quais serão deixadas para trás, esquecidas nas publicações científicas. Eles rotulam e simplificam e, assim, determinam para o público qual ideia presta e qual não presta. No longo prazo, diz Hayek (1960, p. 377), a opinião pública é moldada dessa forma pela classe intelectual.

Os políticos, sabendo que numa democracia a opinião pública é o que sinaliza o rumo que os votos tomarão, têm uma certa facilidade, então, em propor medidas que consolidem o que é pedido pela opinião pública. Na situação atual, essa opinião é ainda favorável ao estatismo. Só que isso começou a mudar. Quando a mudança avançar ainda mais no Brasil, ela será precedida por uma batalha de ideias. O fato de alguns políticos brasileiros que nunca tiveram qualquer compromisso tangível com a liberdade civil ou econômica estarem agora usando o vocabulário liberal já é um sintoma de uma mudança de rumo na opinião pública. Só que a batalha ainda não terminou, e há muito o que se fazer no plano das ideias.

O que vai ter o maior impacto de longo prazo será a mudança cultural que acontecerá quando as pessoas largarem a sua opção preferencial pelo estatismo.

Combinando o primeiro ponto com o segundo ponto: essa mudança na batalha de ideias vai acontecer de baixo para cima. Já está acontecendo. As famílias têm percebido a necessidade de educar seus filhos de forma diferenciada. Tem havido um resgate, ainda pequeno, mas crescente, duma cultura cívica no Brasil. Algumas escolas pouco se importam em adestrar para o vestibular de conteúdo ditado pelos intelectuais, e preferem dar educação de verdade. São poucas, mas o número pode vir a crescer muito rapidamente, se perceberem que educação de qualidade compensa. Algumas universidades já têm dado mais abertura para a divulgação de escolas alternativas de pensamento, que divergem do credo estatista. E, discordando ligeiramente de Hayek, que tinha uma visão muito negativa do papel dos intelectuais, devo mencionar como é importante ter espaços sendo ocupados por ideias alternativas no mercado editorial, em revistas acadêmicas e populares, e como a democratização da produção de conteúdo digital tem auxiliado a causa da liberdade, quebrando o monopólio dos intelectuais sobre os canais de influência da opinião pública.

O que Hayek reclamou sobre os acadêmicos conservadores e liberais terem menos influência com o público é um alerta e um convite principalmente aos professores e pesquisadores. Embora seja interessante cultivar uma classe de “comerciantes de ideias de segunda-mão” favoráveis à liberdade, por mais hábeis que eles sejam nesse comércio, são os próprios acadêmicos os responsáveis por se tornarem melhores comunicadores e divulgadores de ideias sólidas, concretas e praticáveis. A sociedade em geral e a economia em particular são fenômenos complexos que demandam estudos complexos. Porém, os resultados de uma abordagem pormenorizada devem ser traduzidos numa linguagem mais acessível.

Por causa disso tudo que foi dito, é bom ter cautela no curto prazo e ter um certo otimismo de longo prazo. A mudança virá de baixo para cima, e será precedida duma batalha no campo das ideias.

Apresentação feita na 17ª Semana do Centro de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Presbiteriana Mackenzie, 8 de Maio de 2018 (aniversário de nascimento de F. A. Hayek, 1899-1992)

Referências

Downs, Anthony (1957). An Economic Theory of Democracy. New York: Harper & Row.

Hayek, F. A. (1945) “The use of knowledge in society,” The Amercian Economic Review, 35(4): 519—30.

Hayek, F. A. (1960) “The intellectuals and Socialism.” In: George B. de Huszar (ed.) The Intellectuals: A Controversial Portrait. Glencoe, IL: The Free Press, pp. 371—84.

Carvalho, Olavo de. O Jardim das Aflições. Dirigido por Josias Teófilo. 2017; Cotia, SP, Brasil: Lavra Filmes. Documentário.

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