Democracia Sequestrada: o teatro de Lula e a idolatria política

 por Felipe Azevedo Melo

A decretação da prisão do ex-presidente Lula pelo juiz Sergio Moro, ocorrida na tarde da última quinta-feira, 5 de abril, serviu como prelúdio de um espetáculo vergonhoso que se arrastou por dois dias. Após a notícia de que havia sido expedido o mandado para sua detenção, Lula decidiu encastelar-se na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, e comandou um teatro burlesco que provoca assombro e indignação. Dezenas de horas de discursos inflamados de representantes de movimentos sociais, partidos políticos e sindicatos atacaram com fúria descontrolada imprensa, Justiça Federal, Ministério Público, Polícia Federal e STF, e acusações sérias foram feitas contra juízes, ministros, procuradores e desembargadores envolvidos na operação Lava-Jato. O ponto alto dessa manifestação absurda foi o culto ecumênico presidido por D. Angélico Sândalo Bernardino, bispo emérito de Blumenau, seguido de um discurso de quase uma hora do ex-presidente.

Lula alegou que é um perseguido político, que o juiz federal Sergio Moro e todos os principais integrantes da operação Lava-Jato nutrem ódio por si, e que sua condenação judicial é a parte final e definitiva no “golpe” que se iniciou com o impeachment de Dilma Rousseff. O ex-presidente defendeu com emocionada convicção que está sendo perseguido porque “eles” – os ricos, os brancos, a elite malvada – não suportam a idéia de ver gente pobre andando de avião, estudando e comendo carne de primeira. Coroando toda sua verborragia delirante, Lula afirmou que não é mais apenas um homem, mas uma idéia, e que ele passava a viver em cada um daqueles que ainda acreditavam em si. Sob gritos de “Eu sou Lula”, encerrou seu discurso.

As cenas surreais que temos presenciado, constrangedoras como são, acabam por deixar a descoberto alguns aspectos muito reveladores sobre o ambiente político e institucional em que estamos vivendo. Se há em curso algum ataque crítico contra a democracia brasileira, ele não parte da atuação das instituições judiciais do Estado, mas sim daqueles que atacam essas mesmas instituições. A democracia implica, afinal, a existência de um Estado de Direito que abarca todos os cidadãos, ricos e pobres, poderosos e servidores, submetendo-os ao mesmo ordenamento jurídico. O fato de que esses ataques também atinjam diretamente a honra de seus representantes por meio das mais diversas acusações levianas é ainda mais sinistro, pois demonstra o esforço por desumanizar as pessoas que têm exercido seu ofício no combate à corrupção e por validar o ódio como instrumento de luta política.

Outro ponto evidente é o grau de intoxicação ideológica que afeta alguns setores da política nacional e da sociedade civil. Demonstrar apoio e solidariedade a um líder político, seja ele quem for, pode ser considerado um comportamento natural; entretanto, quando esse líder afirma, com todas as letras, que já não é mais um ser humano, mas uma idéia viva que pulsa no coração de cada seguidor, está-se diante de um fenômeno de caráter não apenas político, mas também religioso. A idolatria política é um dos componentes primordiais das ideologias de caráter totalitário, um sinal claro de fanatismo dogmático que, por princípio, é avesso a qualquer busca sincera pelo bem comum.

É preocupante, diante desse quadro geral, ver como importantes instituições brasileiras parecem adotar uma postura que, ao invés de prudência, pode facilmente ser interpretada como covardia. Em nome da dignidade do ofício duas vezes assumido por Lula e invocando respeito pelo que um dia representou – duas coisas das quais o próprio ex-presidente parece esquecer –, as instâncias públicas responsáveis pela aplicação da lei e manutenção da ordem parecem vacilar e se encolher. Prender um dos líderes mais populares da nossa história política recente é, sem dúvidas, uma situação delicada. No entanto, também não há dúvidas de que os crimes pelos quais o ex-presidente foi condenado, juntamente com sua postura de desafio público ao judiciário brasileiro, são muitos e gravíssimos. O sucesso do combate à corrupção sistêmica que assola o País, inaugurado pela Lava-Jato, depende necessariamente da compreensão de que todos os condenados por malfeitos, independente de quem sejam, devem submeter-se à lei, e que qualquer recusa será enfrentada pelas instituições judiciárias com firmeza e decisão.

Lula protagoniza uma ópera-bufa destinada a apequenar as instituições públicas do Brasil e humilhar seus representantes. Essa atitude fere com seriedade não apenas a reputação da Polícia Federal, do Poder Judiciário e do Ministério Público, mas ofende a dignidade do povo brasileiro. Cabe a esse mesmo povo rechaçar essa ofensa, de maneira implacável, apoiando integralmente a operação Lava-Jato e, acima de tudo, cobrando uma postura enérgica das autoridades públicas. Se cedermos agora, nesse momento tão instável, corremos o risco de enterrar de vez o combate à corrupção no Brasil.

Felipe Azevedo Melo é presidente do Instituto Monte Castelo

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